2. O CARÁTER NACIONAL

2 O CARÁTER NACIONAL

Este é um problema relevante para nossa pesquisa: a representação do caráter nacional. Será mostrado neste capítulo como isso ocorreu nas Literaturas do Brasil e dos Estados Unidos no século XIX.

Há necessidade de abordar este tema porque escritores de ambas as nações tentaram retratar o caráter nacional através da Literatura.  No Brasil, pelo movimento romântico denominado indi­anismo, liderado na poesia por Gonçalves Dias e na prosa por José de Alencar.  Nos Estados Uni­dos pelo movimento chamado de Renascença Ameri­cana, cujos autores principais foram Hawthorne, Longfellow, Holmes e Lowell.  A este grupo pode­mos juntar Cooper, Poe, Melville e Whitman, cuja obra é nosso objeto de estudo.

A dificuldade para a representação do caráter nacional através da literatura no Brasil é fruto do contexto social da época. Vivendo num país escravocrata, os escritores naturalmente excluíram de suas obras a raça escravizada. Em seguida, elegeram o indígena, de moral portuguesa, como símbolo da nação.  Mas para percebermos isso mais claramente, é necessário que façamos um esboço da sociedade brasileira até fins do século XIX.  Para depois vermos como foi desen­volvido em nossa literatura o tema da nacionali­dade.

No estudo da cultura brasileira, devemos considerar os três elementos: o índio, o Europeu e o Africano.  Porque somos um povo composto basicamente por hibridização: de uma raça au­tóctone, a indígena, com duas raças estrangei­ras, a portuguesa e a negra.  Isto provoca uma grande interpenetração cultural que impede a cristalização da idéia de povo num único indi­víduo. Não há uma só figura que resuma em si as características fundamentais da comunidade. Como é o caso dos antigos heróis fundadores ou legisladores, retratados nos mitos de origem. Ou como foi o caso dos próprios indígenas do Brasil, que tiveram em Jurupari um de seus mais vigorosos reguladores da vida social. Isto até ser transformado em demônio cristão. E ser destituído de seu alto posto no imaginário indígena da época colonial.

Porque a vida indígena nas Américas foi desorganizada e em algumas partes completamente aniquilada pelo invasor europeu.  Entretanto, o colonizador português foi o menos impiedoso e o mais indulgente de todos com relação ao trata­mento infligido ao povo nativo.  Sendo que o indígena auxiliou em grande escala no desbrava­mento dos sertões brasileiros.  Com esse relaci­onamento, muitos elementos da cultura ameríndia foram incorporados à cultura do invasor e vi­ce-versa.

Devido à necessidade de povoamento da ter­ra, o português rapidamente misturou-se às mu­lheres indígenas para produzir o que lhe era escasso: gente.  Sendo o índio do Brasil bastan­te receptivo, não houve empecilho para uma ex­tensa mestiçagem. Assim, a possibilidade de definir um perfil único para o brasileiro ficou dificultada.

Porque os portugueses, dados à miscigena­ção, à mistura constante de culturas, não possu­íam uma figura que representasse o espírito da nação.  Um indivíduo que reunisse em si todas as virtudes que um povo carrega em seu imaginário.  Não havia “nenhum exclusivismo de tipo no pas­sado étnico do povo português” (Freyre, 1984).  Tendo se submetido sempre a profundas metamorfo­ses de caráter, seu vulto não guarda nenhuma rigidez, nenhum delineamento claro.  É um recep­táculo de dezenas de diferentes culturas e dono de uma enorme plasticidade social.

Este fator, por um lado, impossibilita qualquer tentativa de fixar numa imagem única o caráter de uma nação.  Por outro lado, trouxe para o Brasil a habilidade para “nivelar o mais possível as classes sociais, sem permitir o pre­domínio de nenhuma.”  Não permitindo a rigidez de classes, ou até de castas.  Afirma também o autor de Casa Grande & Senzala que a sociedade portuguesa foi “móvel e flutuante como nenhuma outra”, com grande movimentação de elementos das mais diversas procedências, tanto ascendendo quanto se espraiando pelas camadas médias do país.  Costume transplantado para a Colônia pe­los portugueses.

Quanto ao negro na história brasileira, ele ocupa posição semelhante à do português no que se refere à definição de caráter.  Sendo extremamente “plástico e adaptável”, e princi­palmente devido à sua condição de escravo duran­te o período colonial e imperial, ele ficou qua­se à mercê das influências da raça dominante.  Mas sem deixar nunca de impor a marca de sua cultura ou da sua cor no corpo, ou na alma, de seus senhores ou mesmo de “todo brasileiro.”

O problema, então, é como traçar o perfil do representante de uma cultura tão variada e complexa, fruto da interpenetração de três povos distintos, vindos de três continentes distintos.  Como foi dito acima, o Romantismo do século de­zenove tentou dar esta resposta ao Brasil, tanto na poesia quanto no romance, assim como nos Es­tados Unidos.

Em verso, o grande expoente foi Gonçalves Dias, da primeira geração romântica, chamada de indianista.  Como admirador dos índios, ele bus­cou idealizá-los e transformá-los em represen­tantes do povo brasileiro.  Através dos seguin­tes versos do poema I-Juca Pirama (em tupi: o que há de ser morto), podemos constatar a dico­tomia que aparece na descrição do sentimento indígena na obra de Gonçalves Dias:

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi;

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo Tupi.

[...]

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

[...]

Do pai fraco e cego,

[...]

Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deus lhe deixou:

[...]

Guerreiros, não coro

Do pranto que choro;

Se a vida deploro,

Também sei morrer.

Na primeira estrofe, o índio assegura que descende da “tribo Tupi”.  Já o último verso citado nomeia o mesmo índio como uma obra de “Deus”.  A questão é: se o personagem é um “fi­lho das selvas” e nas selvas cresceu, como pode ter conhecimento sobre “Deus”?   E não é o caso de chamar Deus de “Tupâ”, como os padres ensina­ram aos índios.  O poema descreve o índio em estado natural, em contato com outros da mesma espécie, numa guerra tribal.  Portanto, sem contato com o elemento branco ou negro.  Mas falando bom português e revelando Deus como seu criador.  É evidente no poema a idealização do índio.  Como isso ocorre?  Demonstrando um sen­timento típico de um português religioso e no­bre.  O autor faz seu índio pensar como um por­tuguês.  Por outro lado, a resignação com a pró­pria sorte perante o vencedor, no último verso, era um típico costume indígena.

O problema reside na concepção do persona­gem.  Ele não é unívoco em seu canto.  Embora afirme pureza de origem, demonstra uma boa vi­vência com a religião de um outro povo, o portu­guês.  Isto é resultado não do intercâmbio cul­tural do personagem, mas da paixão do autor pelo seu tema.  Por mais que ele tente resguardar sua obra de sua própria influência, ele não consegue evitar que os dados de sua própria cultura a impregnem.  Mesmo com o firme propósito de exal­tar a figura indígena, ele acaba permitindo a mescla de cultura.  Certamente o fator maleabi­lidade, característico do colonizador, contri­buiu para isso.

Com base na natureza dos três povos que formaram o brasileiro, todos inclinados à misci­genação, podemos afirmar que a representação indianista não reflete totalmente a realidade social do Brasil da época, até porque esta não era sua intenção.  De qualquer modo, como figu­ração do caráter do povo brasileiro, ela está incompleta, já que o elemento negro não é consi­derado.

No romance, o maior destaque é sem dúvida José de Alencar, com O Guarani, Iracema e Ubira­jara.  Não nos cabe aqui discutir o valor esté­tico ou a relevância lingüística da obra de A­lencar para a fundação de uma Literatura Brasi­leira.  Podemos dizer que eles são indiscu­tíveis.  Cabe-nos argumentar sobre o conteúdo social do personagem.  Assim como Gonçalves Di­as, José de Alencar produz o mesmo tipo de per­sonagem.  Um indígena genuíno com idéias e com­portamento de nobre europeu.  Do mesmo modo que o poeta, Alencar não abarca o amplo espectro das raças em ação.  Ele descreve o índio em estado selvagem.  Mas dono de uma nobre cultura portu­guesa.  De novo, surge a pergunta: como pode um selvagem puro pensar e agir como um nobre euro­peu?  Ou como uma suave donzela, como é o caso de Iracema: “Vendo o animal, [...] a esperança reanima seu coração; quer erguer-se para ir ao encontro de seu guerreiro e senhor [...]” Apesar de seu grande esforço no sentido de captar a essência da alma indígena, ele cede ao idealis­mo, e Iracema segue o mesmo curso dos persona­gens citados, isto é, possui uma ligação muito mais forte com o imaginário do autor do que com a realidade social.  O próprio Alencar criti­cou Gonçalves Dias, dizendo que os personagens deste falavam uma linguagem clássica.

O problema nas obras citadas acima pode ser resumido em dois pontos: a tentativa de ele­ger somente uma das raças (a indígena) como sím­bolo do país; e o completo esquecimento do ter­ceiro grupo étnico, os negros.  Deste modo, po­demos dizer que o caráter nacional, considerando a pluralidade de raças do Brasil, não foi carac­terizado em toda a sua amplitude.

Com relação aos Estados Unidos do século XIX, a situação social era parecida, até certo ponto, com a brasileira.  Havia a escravidão negra.  Lá praticamente restrita aos estados do Sul (no Norte já havia sido abolida).  E houve a quase extinção do indígena.  Mas não ocorreu relacionamento intrarracial, ou mestiçagem, como no Brasil.  E só ao final do século passado, como previu Tocqueville, após a vitória do Nor­te livre contra o Sul escravocrata, os nor­te-americanos puderam apagar a mancha que sujava sua democracia.

Nesse tempo, a contribuição do Romantismo se deu de dois modos: primeiro, romanceando o homem comum e exaltando o primitivo.  Num tempo de expansão, com duas vitórias diplomáticas so­bre a França e a vitória contra os mexicanos, que alargou as fronteiras americanas até a Cali­fórnia, muitos heróis surgiram.  Como no Brasil, os escritores americanos produziram idealizações dos indígenas.  E também romances de aventura para o oeste e baladas antigas.  Principalmente Willian Cullen Bryant com As Pradarias, poema escrito sobre os campos americanos que, em meio ao milagre da natureza, canta também o “pe­le-vermelha”; Washington Irving com Rip Van Winkle, um homem simples e personagem do primei­ro conto a ser publicado nos Estados Unidos; e James Fenimore Cooper, com O Último dos Moica­nos, estória da tomada do Forte Britânico Willi­am Henry pelos franceses e que conta o fim do último dos Moicanos.

Em segundo lugar, através da valorização do subconsciente e da imaginação, com autores como Edgar A. Poe, que escreveu A Queda da Casa de Usher e Hawthorne, autor de A Filha de Rappaccini e Young Goodman Brown.  Esses contos também continham um grande interesse pela “per­cepção intuitiva“.  Para completar este grupo, é preciso citar Herman Melville, um apaixonado pelo simbolismo do mal, autor de Moby-Dick.  Não cremos ser necessário nos alongar aqui devido ao fato desses autores ser bem conhecidos do públi­co brasileiro, principalmente Poe e Melville.

Por outro lado, é preciso enfatizar que essa época de grande expansão e desenvolvimento, de mudanças e reformas, foi fundamental para o aparecimento de outros autores.  Os mais impor­tantes foram o filósofo Ralph Waldo Emerson, Thoreau e Whitman.  Os dois primeiros foram os mestres do Transcendentalismo, uma corrente de “idealismo intuitivo” que combateu as ortodoxias racionalistas e autoritárias anteriores.  E que tiveram influência sobre Whitman.  Mais especi­ficamente a obra de Emerson.  E em particular seu ensaio O Poeta.  Neste estudo o filósofo (Emerson, 1844) delineia o perfil do poeta.  Mas não de qualquer poeta.  Ele desenha a imagem daquele poeta inventor, daquele que vê através das coisas e faz o “mundo virar vidro”, pois só ele tem aquela “percepção melhor” que lhe faci­lita enxergar o “fluir ou a metamorfose” das coisas.  Que percebe em cada criatura uma força interior buscando uma “forma” superior.  E assim sua linguagem segue o fluxo da natureza.  Deste modo, ele usa a forma de acordo com a vida e não o oposto.  Ele é o “nomeador” ou “faze­dor-de-linguagem”.  Afirma o filósofo que foram os poetas que inventaram todas as palavras.  Porque só eles têm essa capacidade de se entre­gar às coisas e entender a essência delas.  Por isso que eles sabem que, além do indivíduo, há o poder que vem do coletivo, e que eles podem cap­tar.  Basta que abram as “portas” de sua humani­dade e sintam as “marés” do universo “circulando através” deles.  Pois o poeta é o “homem sem impedimento”.

Ao mesmo tempo, lamenta o filósofo que ainda não tenha visto nenhum “gênio na América”.  Um Dante, um Homero.  Alguém que cante o valor de seus “incomparáveis materiais”.  Alguém que veja a maravilha de seus “apoio-mútuo, [...] palanques e seus políticos, indústria da pesca, [...] Negros e índios, (…) comércio…”  E o filósofo continua enumerando o que está pra ser cantado em seu país, pra fechar com um comentá­rio que carrega em si um significado bem claro: “Entretanto a América é um poema em nossos o­lhos; sua ampla geografia deslumbra a imagina­ção, e não vai esperar muito por metros.”

O filósofo está expressando a vontade de ver o seu país representado num poema grandioso.  Assim como grandiosa é sua terra.  E só o poeta que enxergar todo o país como se fosse através de um “vidro” poderá captar em suas imagens o seu espírito.

Resgatando nossa proposição inicial, a representação do caráter das nações brasileira e americana nas respectivas literaturas, veremos agora como isso aconteceu na obra de Walt Whit­man.

O poeta de Folhas de Relva realizou esta tarefa com o “homem-orquestra”.  Não havia modo de criar um arquétipo verossímil, integral, numa sociedade composta de imigrantes de todas as raças.  Por isso ele inventou uma forma baseado na percepção da vida de seu tempo, uma “pessoa simples separada”, um “eu”, uma “forma” humana, que pode ser feminina ou masculina, além da fi­siologia, e mais além ainda da fisionomia.  Que significa muito além das raças.  Ele cantou o “Homem Moderno”, como está expresso no poema “Eu Canto um Eu”, na abertura de “Inscriptions” , livro que passou a ocupar o lugar inicial das Folhas:

EU CANTO UM EU, uma pessoa sim­ples separada,

Porém profiro a palavra Democrá­tico, a palavra En-Masse.

A fisiologia do crânio ao calca­nhar eu canto,

Não só fisionomia nem só cérebro é digno da Musa, eu digo que a For­ma completa é muito mais digna,

A Feminina igualmente com a Mas­culina eu canto.

Da vida imensa em paixão, pulso e poder,

Jovial, para a ação mais livre formado sob as leis divinas,

O Homem Moderno eu canto.

Está realizado neste poema o desejo de Emerson de ver a transcendentalização do homem.  O ser humano sai de sua forma comum e atinge uma forma superior.  Deixa sua simples realidade física e alcança a “Forma completa” do “Homem Moderno”.  Ao mesmo tempo em que deixa a forma individual e atinge uma forma universal.  Esta é a realização poética do desejo do filósofo.  Que declarou em seu ensaio O Poeta (Emerson, 1844) sobre aquele que devia cantar sua América:

… E esta é a recompensa; o ideal será real pra vós, e as im­pressões do mundo real cairão como chuvas de verão, copiosas, mas não problemáticas para vossa invulne­rável essência. (…) Onde quer que a neve caia, a água flua ou pássaros voem, onde quer que a noi­te e o dia se encontrem no crepús­culo, (…) onde quer que estejam formas com fronteiras transparen­tes, onde quer que estejam as aber­turas para o espaço celestial, onde quer que estejam o perigo, a admi­ração, o amor, – aí estará a Bele­za, abundante como a chuva (…) vós não acharás uma condição ino­portuna ou ignóbil.

E o poeta realizou o seu ideal.  Os três livros aqui traduzidos demonstram isso.  Não há meio de resumir numa passagem o alcance da obra.  Mas confiamos que o próximo capítulo esclarecerá esta parte.  Nele serão discutidos alguns dos principais temas das Folhas de Relva.  Assuntos como democracia, liberdade, amor, lirismo e mu­sicalidade, que vão mostrar a concepção do homem apenas esboçada no poema acima citado, “Eu Canto um Eu”.


Esta afirmação diz respeito somente aos autores e obras citados neste capítulo.

Cf. Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1984, p.5. Note-se a “[...] singular predisposição do português para a colonização híbrida [...]“

Cf. Gilberto Freyre, op. cit., p.89 e segts.

Cf. Gilberto Freyre, op. cit., p.283 e 287.

Cf. Luís da Câmara Cascudo, nota 2 de fim de capítulo.

Não é nossa intenção discutir aqui as razões que levaram os autores citados a tal atitude.

Cf. José de Alencar, Iracema, Rio de Janeiro, Ediouro S.A., s/d, p.70. No posfácio, uma “Carta ao Dr. Jaguaribe”, o autor confessa que havia achado o “tema” para seu romance e que “Faltava-lhe [ao tema] o perfume que derrama sobre as paixões do homem a alma da mulher.”

Cf. Alexis de Tocqueville (nota 8 de fim de capítulo), p.261: “Quaisquer que sejam, aliás, os esforços dos americanos do sul dos Estados Unidos para conservar a escravidão, não o conseguirão sempre. Encerrada em um só ponto do globo, atacada pelo cristianismo como injusta, pela economia política como funesta, a escravidão em meio à liberdade democrática e às luzes de nosso século, não é uma instituição que possa ser duradoura.”

Cf. The American Tradition in Literature, New York, Grosset & Dunlap, Inc., 1967, p.368 e sgts. Todos os escritores citados, exceto Walt Whitman, estão incluídos neste antologia.

Infelizmente, não podemos nos desviar de nossa pesquisa para discutir esta corrente filosófica de extrema importância na história das idéias dos Estados Unidos. O que nos interessa neste momento é mostrar como alguns dos ensaios de Emerson influenciaram Walt Whitman, por exemplo, Self-Reliance (Auto-confiança) e The Poet (O Poeta).


Cf. Gilberto Freyre, op. cit., p.53 e 54: “Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, [...] um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura européia e a indígena. A européia e a africana. A africana e a indígena. [...] É verdade que agindo sempre, entre tantos antagonismos contundentes, amortecendo-lhes o choque ou harmonizando-os: [...] a miscigenação, [...] o cristianismo lírico à portuguesa, a tolerância moral, a hospitalidade a estrangeiros [...]“

[ii] Cf. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, São Paulo, José Olympio Editora, 1947, da p.80 à 110. Este capítulo trata do mito indígena de Jurupari, maior alvo de veneração entre os mitos autóctones. Ele ditava as regras da vida na comunidade, era como “um herói antigo que haja existido entre os nossos selvagens; uma espécie de legislador filósofo como Budha, Confúcio, etc., que lhes haja ensinado uma espécie de filosofia muito rudimentar, e algumas noções de vida prática”. À p.110, o autor enumera oito leis básicas, atribuídas a Jurupari, pelas quais “governam-se praticamente os nossos índios [...]: 1º.) a mulher deverá conservar-se virgem até a puberdade; 2º.) nunca deverá prostituir-se e há de ser sempre fiel ao seu marido; 3º.) após o parto da mulher, deverá o marido abster-se de todo trabalho e de toda comida, pelo espaço de uma lua, afim de que a força dessa lua passe para a criança; 4º.) o chefe fraco será substituído pelo mais valente da tribo; 5º.) o tuixáua poderá ter tantas mulheres quantas puder sustentar; 6º.) a mulher estéril do tuixáua será abandonada e desprezada; 7º.) o homem deverá sustentar-se com o trabalho de suas mãos; 8º.) nunca a mulher poderá ver Jurupari afim de castigá-la dos três defeitos nela dominantes: incontinência, curiosidade e facilidade em revelar segredos. [...] Os índios não adoram Juruparí; consideram-no como alguma coisa de grande e misterioso porque como tal o receberam dos seus antepassados [...]“

[iii] Cf. Luís da Câmara Cascudo, op. cit., p.80 e sgts, sobre como os padres transformaram Jurupari, o maior mito indígena, no diabo cristão; e Tupã, uma divindade sonora, na maior influência do continente sul-americano.

[iv] Faraco & Moura, Literatura brasileira, São Paulo, Editora Ática S.A., 1988, p.67: é preciso notar que “O índio que aparece nos textos românticos, portanto, não é o índio contemporâneo dos escritores, mas sim um tipo idealizado, sempre bom, nobre, bonito e cavaleiro generoso. [...] Essa transformação do índio em herói literário obedeceu à saída possível que os escritores encontraram no sentido de buscar um típico representante daquilo que seria o homem brasileiro. O branco não poderia ter essa função simbólica, pois lembrava o português colonizador; o negro, por ser estrangeiro e escravo, não reunia condições necessárias ao papel de herói; restava então a figura do índio, homem ainda não corrompido pela sociedade e que já existia aqui antes da chegada dos portugueses.”

[v] Alfred Métraux, A Religião Dos Tupinambás, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1950, pp.265-6. Este livro é um estudo sobre os ritos dos indígenas brasileiros e paraguaios, já que tupinambá é uma denominação de praticamente todas as tribos, pois se trata de um termo de alcance geral. O autor, pesquisando os cronistas e viajantes da época colonial, chegou à seguinte conclusão: “Nenhum traço dos costumes tupinambás excitou tanto a curiosidade e o interesse dos antigos viajantes como esse de devorarem os índios a seus prisioneiros de guerra. Às perguntas propostas sobre a origem e finalidade de tão perverso hábito, respondiam os selvagens, invariavelmente, que assim agiam com o fito de vingar a morte de seus pais; era a vingança do sangue o único e exclusivo móvel de suas expedições bélicas, consideradas incompletas se o inimigo não era afinal devorado. [...] Estavam esses silvícolas tão convencidos da necessidade de devorar, ou morder o ofensor, como satisfação do dano, que aplicavam semelhante lei aos próprios animais e objetos inanimados. [...] São os selvagens muito vingativos, enfurecendo-se facilmente contra tudo o que lhes possa causar mal; se, por exemplo, topam numa pedra, mordem-na enraivecidos como fazem os cães.”

[vi] José de Alencar, O Guarani, São Paulo, Ed. Edigraf, s/d. Notar como o índio se coloca a serviço da dama: “[...] Peri nada fez; quem te salvou foi a senhora. [...] -Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Peri quer ver a senhora contente. [...] Peri sabe por que fala assim; tem olhos que vêm, e ouvidos que ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno que abre a flor da noite.” E como o “selvagem” se comporta como um perfeito cavalheiro.

[vii] Cf. José de Alencar, op. cit.: “Gonçalves Dias é o poeta nacional por excelência; ninguém lhe disputa na opulência da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brasileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas aproveitou muitas das mais lindas tradições dos indígenas; e em seu poema não concluído dos Timbiras, propôs-se a descrever a epopéia brasileira.

Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem clássica, [...] eles exprimem idéias próprias do homem civilizado, e que não é verossímil tivessem no estado da natureza.”

[viii] Alexis de Tocqueville, A Democracia na América, São Paulo, Editora Abril Cultural, p.254 e segts.: diz ele sobre as raças que compunham o povo americano: “Os homens espalhados no espaço americano não formam [...] uma mesma família. [...] a sorte os reuniu sobre o mesmo solo, [...] mas [...] é o homem branco, o europeu, o homem por excelência; abaixo dele, aparecem o negro e o índio. [...] O negro entra ao mesmo tempo na servidão e na vida. Digo mal: com freqüência, é comprado ainda antes de nascer. [...] Todas as tribos que antigamente viviam no território da Nova Inglaterra [...] hoje estão desaparecidos. [...] esses selvagens não recuaram somente, foram destruídos.”

[ix] Alexis de Tocqueville, op. cit., p.260 e segts.: “Os índios morrerão no isolamento em que viveram;”; “Se fosse absolutamente necessário prever o futuro, diria que, de acordo com o curso provável das coisas, a abolição da escravidão no sul aumentará a repugnância da população branca pelos negros. [...] Sou obrigado a confessar que não considero a abolição da escravidão um meio de retardar, nos Estados Unidos, a luta entre as duas raças.”

[x] Diz o ensaio sobre Walt Whitman, no Literary History of the United States, op. cit., p.481: “Não há dúvida de que Whitman absorveu algo de Emerson antes que escrevesse as Folhas. [...] na ‘Canção de Mim Mesmo’ [...] há ecos e paráfrases de Emerson.”

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