3. UM IDEAL DE HUMANIDADE
3 UM IDEAL DE HUMANIDADE
3.1 Recrítica
O ato de recriação poética é um processo que obriga o tradutor a analisar uma obra ao nível do fonema / letra. O faz percorrer o trajeto do todo para a parte. Da visão panorâmica ao detalhe mínimo. Depois, num caminho inverso, atinge-se o todo novamente, partindo de cada som / letra, sílaba, palavra, versos, estrofes, até o texto[i]. Mas com uma diferença: o caminho de ida é diferente do caminho da volta. Primeiro, descontruímos o texto numa língua para em seguida reconstruí-lo numa outra língua. A esta forma de transplante[1] literário demos o nome “recriação”. Por acharmos o termo apropriado e para prestar uma homenagem aos poetas concretistas, que o forjaram para denominar este método de tradução.[2] Por isso escolhemos o termo recrítica para significar o comentário sobre uma obra recriativa.
A palavra comentário é utilizada por causa do contexto da obra. Acreditamos que a construção de um edifício teórico para abrigar Folhas de Relva nos faria cair em muitas armadilhas. Porque este texto é muito polifônico para sustentar uma teoria. Poderíamos até defender várias. Mas sempre estaríamos incorrendo no erro de negligenciar algum aspecto da obra. Por exemplo, se estudássemos a manifestação religiosa na “Canção de Mim Mesmo”, e tentássemos provar que o poeta era extremamente religioso, não poderíamos ocultar o verso no qual o próprio poeta declara que o cheiro das suas axilas são “aroma mais fino que prece” e que sua cabeça é maior que “igrejas, bíblias, e todos os credos[ii].”
Podemos considerar um aviso muito claro a nós, estudiosos do poema, o trecho no qual o poeta afirma: “então eu contradigo a mim mesmo, / (Eu sou vasto, eu contenho multitudes[iii])”. Estes versos são uma indicação bastante evidente da proposital polifonia do poema. E qualquer abordagem que tente enquadrar Folhas de Relva dentro de algum esquema teórico pré-concebido tem muitas chances de falhar. Achamos que a crítica deve ser formulada a partir do poema. Localizando temas e expondo-os. Trazendo para a discussão assuntos relevantes para o entendimento da obra. Esta é a razão de termos denominado esta parte de nossa pesquisa de comentário.
3.2 Temas
Democracia, liberdade, amor-próprio e amor ao próximo são expressões importantes na obra de Walt Whitman. Elas fornecem o fundamento para o ideal de povo e de humanidade que o poeta desenvolve nas Folhas de Relva. São os termos que melhor explicam o espírito dessa poesia amorosa e confiante. Amorosa com o ser humano e confiante em si para ser a voz de quem não tem voz. Mostrarei nas páginas que seguem alguns exemplos de como isso acontece.
[1] Cf. Celso Pedro Luft, Minidicionário Luft, São Paulo, Editora Scipione, 1991, p.609, o verbete transplantar: “Arrancar (planta, árvore) de um lugar e plantar em outro.” Esta palavra se encaixa com perfeição ao contexto da obra, que tem o título geral de Folhas de Relva e um livro chamado “Cálamo”.
[2] Cf. Haroldo de Campos, op. cit., p. 31.
[i] Cf. Haroldo de Campos, Metalinguagem, São Paulo, Editora Cultrix, 1976, o ensaio “Da Tradução como Criação e como Crítica”, p.31: “A tradução de poesia [...] é antes de tudo uma vivência interior do mundo e da técnica do traduzido. Como que se desmonta e se remonta a máquina da criação, aquela fragílima beleza aparentemente intangível que nos oferece o produto acabado numa língua estranha. E que, no entanto, se revela suscetível de uma vivissecção implacável, que lhe revolve as entranhas, para trazê-la novamente à luz num corpo lingüístico diverso. Por isso mesmo a tradução é crítica.”
[ii] Irineu Monteiro, op. cit., p.87, tentou fazer isso, ocultando o verso citado acima. Na verdade, todo o livro Profeta da Liberdade está carregado de uma tendência religiosa, numa tentaiva de convencer o leitor de que Whitman era um fervoroso seguidor da Bíblia. Não há como negar a influência do Livro Sagrado. Mas também não há como reduzi-lo a isto.
[iii] Esta idéia de vastidão pode ter vindo das leituras que o peota fez de Ralph W. Emerson. No ensaio Autoconfiança, in The American Tradition in Literature, New York, Grosset & Dunlap, Inc., 1967, v. 1, pp.1134-5, o filósofo pergunta: “Suponha que você pudesse contradizer-se; e daí? Parece ser uma regra da sabedoria nunca confiar somente na memória, [...] Uma grande alma simplesmente não tem nada a ver com consistência. [...] Ser grande é ser mal-entendido.”
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