A democracia é cantada desde o início. Na parte 1 da “Canção de Mim Mesmo”, vemos a intenção do poeta de ser o representante de um povo de iguais[1]: “Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim, / E o que assumo, tu assumes, / Pois todo átomo pertencente a mim também pertence a ti.” Ao compartilhar com seus leitores a celebração do “eu”, supondo que todos irão aceitar sua forma de agir, ele subtrai o próprio “eu” de uma posição central ou superior. Ele irá cantar a si próprio assim como a todos os seus leitores ao mesmo tempo. Embora isto produza na obra uma indistinção entre os sujeitos atuantes (o “eu” poético, o “outro”, “vocês”), ela é adequada ao contexto do poema. É um indício da ampla empatia do poeta pela multidão, nos braços da qual ele parece literalmente se perder. Por exemplo, no início da parte 16 o poeta canta:
Eu sou dos velhos e jovens, dos tolos assim como dos sábios,
Desatento aos outros, sempre atento com os outros,
Maternal assim como paternal, uma criança assim como um homem,
Recheado com o recheio que é tosco e recheado com o recheio que é fino,
Um da Nação de muitas nações, igual ao menor e igual ao maior, [...]
Esta mistura, esta fusão, esta nebulosa que envolve o “eu” e o “outro” indica o infinito “mar de amor” que inunda o poeta e que é vertido sobre seus afetos. Esta vastidão amorosa faz o poeta emprestar sua palavra a todos os seres humanos. Todos têm direito a dar sua mensagem. Inclusive aqueles que podem levar perigo ao mensageiro. No entanto, sem vacilar, ele aceita a incumbência, como diz no seguinte verso na mesma parte: “eu permito falar a todo risco” Qualquer que seja a conseqüência, o poeta a assume. Isto demonstra muita confiança. Confiança em si para empreender uma tarefa tão árdua, pois naquele momento o futuro da obra era imprevisível. E confiança no ser humano, no futuro da espécie humana. Tendo claro em sua mente que aquele que “[...] agiu bem no passado ou age bem hoje não é esse prodígio, / O prodígio é sempre e sempre como pode haver um homem vil ou um infiel[2].”
O poeta estava ciente da maldade. E não a ignorou. Ela também faz parte do espírito humano. Não era seu intento eliminá-la. Ao contrário, ele canta: “Eu não sou o poeta da bondade apenas, eu não declino de ser o poeta da maldade também.” Pois se considerava um “louvador de ódio e conciliação” e nunca[3] um “rejeitador”. Enfim, ele queria a afirmação democrática acima de tudo. Isto é concretizado através da palavra “En-Masse”, que representa o “todo” da humanidade, um todo unido. Esta palavra transmite sua fé inabalável no homem. Por esta razão a escolheu dentre os termos modernos. “Em massa” evidencia o sentido de democracia, que vem do grego “démos”, povo, e “krátos”, poder, domínio. O poder do povo condicionado à ação em conjunto. Toda a idéia de democracia é sintetizada em “Cálamo” no poema “Para Você Oh Democracia”: “VEM, eu farei o continente indissolúvel [...] / Eu farei cidades inseparáveis [...]“. Ao final deste poema, o poeta chama a democracia de “ma femme” e declara-se seu servo e cantor. Seu ilimitado amor o permitia.
Como desdobramento poético desta idéia, o poeta elabora os famosos “catálogos”, suas longas descrições das massas em movimento.[4] Tanto as urbanas quanto as rurais em direção ao oeste, alargando as fronteiras do país, assim como as massas no mundo inteiro. Foi a maneira que ele elaborou para representar literariamente a “massa”. Não bastava falar da multidão, havia necessidade de colocá-la na obra. E como é feito isto? Através da individualização. Ele toma uma multidão e a separa em indivíduos, descrevendo-os um a um. Deste modo, ele produz de fato uma multidão em sua obra.[5] Embora muito criticada, essa poesia descritiva jamais perde seu caráter especificamente poético. Alguns críticos[6] a denominam de catálogo, outros de inventário. No entanto, o poema mantém o ritmo e principalmente a vivacidade e o movimento típicos de grandes grupos em constante rotação. Contando ainda com a variedade das situações e dos personagens. De tudo isso, o fundamental é o tratamento que o poeta dá a cada indivíduo, seja ele humano, animal ou vegetal. Ele realmente tem algo a dizer sobre cada um deles, um detalhe, um pormenor que os caracteriza e os destaca como indivíduos.[7] Por esta razão, soa inapropriado o uso depreciativo da palavra “catálogo”, mero alinhamento de nomes, para classificar a obra. As descrições whitmanianas têm vida, têm ritmo, têm colorido humano.
3.2.2 Liberdade
É oportuno destacar neste momento a capacidade do poeta de tratar a “massa” individualmente. Pois é nos mesmos termos que ele aborda a questão da liberdade. Este tema, nas Folhas de Grama, está intimamente ligado ao indivíduo, ao desenvolvimento pessoal, à busca, à realização de sonhos e desejos. O poeta defende com paixão o direito de cada um à liberdade. Em um de seus grandes momentos, que são muitos, o poeta escreve “Uma Hora de Demência e Gozo”, poema que faz parte de “Descendentes de Adão”. Este poema expressa de forma magnífica o comportamento de uma mente livre, ou que pretende se libertar. Vejamos como isto ocorre:
[...] Ter a mordaça removida da boca!
Sentir hoje ou qualquer dia que eu sou suficiente como eu sou.
Oh algo não-provado! algo num transe!
Escapar totalmente das âncoras e amarras dos outros!
Ficar livre! amar livre! correr temerário e perigoso!
Cortejar destruição com escárnios, convites!
Ascender, saltar aos céus do amor indicado a mim!
Subir lá com minha alma inebriada!
Perder-me se assim deve ser!
Alimentar o restante de vida com uma hora de plenitude e liberdade!
Com uma breve hora de demência e gozo.
Vemos nesta passagem um exercício da vontade livre. Cada um escolhendo seu destino. Pois não é só o poeta que deseja “saltar” ao céu e buscar o seu amor. Ele espalha este prazer a seus leitores. Quem aceitar sua indicação terá tomado o caminho rumo ao desenvolvimento, à construção de sua liberdade pessoal.[8] Superando todos os medos e construindo suas oportunidades. E, como ele ressalta, com a possibilidade de se “perder”, se assim for necessário. Mas nunca se render ou se submeter à vontade de outrem. O fator individualidade levado ao seu ponto máximo no verso “Escapar totalmente das âncoras e amarras dos outros”. Aqui está em primeiro plano o homem e sua necessidade de ser livre, principalmente de “amar livre”.
3.2.3 Amor-próprio e amor ao próximo
Com isso chegamos ao amor. O amor-próprio e o amor ao próximo. Por exemplo, o amor-próprio, que revela uma extrema confiança do poeta em si mesmo, é cantado desde os primeiros versos: “Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim,”; “Eu, com trinta-e-sete anos de idade em perfeita saúde começo,/ Querendo não cessar até a morte.” Esta esperança[9] é um dos “mottos” contínuos do poeta, juntamente com a democracia, a liberdade e, sem dúvida, o amor ao outro, reverso do amor a si mesmo.
Isto pode ser verificado, por exemplo, com um ensinamento bíblico bastante conhecido, o “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo.[10]“, que ecoa nos seguintes versos do poema “A Base de Toda a Metafísica” de Cálamo:
Porém sob Sócrates claro vejo, e sob Cristo o divino eu vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada, a atração de amigo a amigo,
Dos bem-casados marido e mulher, de filhos e pais,
De cidade a cidade e terra a terra.
Como se pode ver no trecho citado, há essa presença do amor bíblico na obra de Walt Whitman. Principalmente no que se refere ao cuidado com o outro, estendido a homens, mulheres, animais, plantas e à terra como um todo. Vê-se nesta passagem a exaltação do amor, tanto entre filhos do mesmo povo quanto entre povos de terras diferentes.
Assim como ocorre na Bíblia, este amor chega ao ápice quando ele é divinizado. Essa consideração divina para com o semelhante, que no Livro Sagrado parte de Deus[11] para o crente, também está presente em Folhas de Relva. Neste caso, a divinização flui do poeta para seus ouvintes / leitores. Em primeiro lugar, o poeta considera seu corpo divino. Em seguida, reparte esta bênção com quem ele encontra, como mostra este verso da “Canção de Mim Mesmo”, parte 24: “Divino eu sou por dentro e por fora, e eu faço sagrado o que quer que eu toque ou que me toque”. O poeta chega às vezes a agir como um Cristo fazendo milagres,[12] tal é o poder que ele acredita possuir. Com seu corpo atlético, ele se acha capaz de curar até enfermidades, e não apenas dar suporte moral às pessoas. Por exemplo, nesta passagem, situada à parte 40 da “Canção de Mim Mesmo”, primeiro o poeta acorre a “qualquer moribundo” e manda o “médico e o padre para casa”. Em seguida, ele “agarra o declinante” e o ergue com “vontade irresistível”, colocando-o sobre seus ombros. Depois dá-lhe forças com seu “hausto” e, após obstruir mais um caminho para o túmulo, diz ao doente que “Nem dúvida, nem decesso” o atormentarão. Por fim, promete ao doente que, na manhã seguinte, ele se erguerá (o doente) e perceberá que o poeta está dizendo a verdade. Em suma, promete a cura numa cena biblicamente milagrosa. Através de seus poemas, ele transmite esta intenção saneadora.
Entretanto, como o próprio poeta adverte, é preciso ter cuidado com sua poesia. Ela não é dogmática e ele não é sempre o mesmo, ele às vezes pode ser bem “diferente” do que imaginamos.[13] Por isso, é necessário ressaltar que a influência da Bíblia é sempre no sentido positivo, sem apelos dogmáticos ou punitivos, como prega em muitas partes o Livro Sagrado.[14] O poeta utiliza essas noções bíblicas para dizer que seu amor pode ser tão grande como o de Jesus. Um amor que alcança toda a humanidade, que vai de homem a homem, não importa em que terra estejam.
Ele confia tanto em si que chega ao ponto de escrever mensagens às gerações futuras. Ele lega aos séculos por vir a sua palavra de profeta, com a certeza absoluta de que será bem recebido. Fazendo uma ponte entre o passado e o presente, e lançando sua palavra ao futuro, o último poema do livro “Cálamo”, intitulado “Cheio de Vida Agora”, reafirma o verso do trecho de abertura de “Canção de Mim Mesmo”, “[...] começo, / Querendo não cessar até a morte.” O poema canta:
CHEIO de vida agora, compacto, visível,
Eu, quarenta anos de idade no octogésimo-terceiro ano dos Estados,
A alguém um século adiante ou qualquer número de séculos adiante,
A você ainda inato estas, buscando-lhe.
Quando você ler estas eu que era visível me tornei invisível,
Agora é você, compacto, visível, percebendo meus poemas, buscando-me,
Fantasiando quão feliz você seria se eu pudesse estar contigo e me tornar seu camarada;
Que seja como se eu estivesse contigo. (Não esteja certo demais mas eu estou contigo agora.)
Há realmente algo bíblico[15] nesta afirmação. A promessa da presença. É como uma aliança divina. Se o poeta afirma que estará com seu leitor “qualquer número de séculos adiante”, isto significa a eternidade. Que é diferente, por exemplo, da “eternidade” prometida por Shakespeare[16] à sua amiga. A posteridade da amada depende do poema. Enquanto a arte viver, a memória daquele amor vai ser mantida. Já o cantor de “Cálamo” tem certeza que estará presente em qualquer tempo no futuro. Por isso seu verso prediz com precisão o acontecimento por vir. É um amor ao próximo transtemporal. Felicidade e camaradagem eternizadas pela palavra.
[1] Cf. Literary History of the United States, New York, The MacMillan Company, 1948, vol. 1, p.478, no ensaio destinado a Walt Whitman, no qual o crítico destaca este trecho do poema como uma “passagem-chave” para entender que o poeta desejava ser o representante de todos, a “voz da democracia” a “todo risco”.
[2] Este verso aparece na parte 22 da “Canção de Mim Mesmo”, trecho em que o poeta afirma que seu modo de ser não é o de “descobridor de defeitos”, pois a virtude e o vício lhe são indiferentes. Cf. R. W. Emerson, Self-Reliance, in The American Tradition in Literature, New York, Grosset and Dunlap, Inc., p.1130: “Confia em ti: todo coração vibra com essa corda de ferro.”
[3] Cf. Levítico, 19:16 – “Não serás um divulgador de maledicência a respeito dos teus e não sujeitarás a julgamento o sangue do teu próximo.” A Bíblia teve grande influência sobre WW, inclusive sobre sua forma de escrever, sua linguagem abismal, repleta de cortes abruptos (Monteiro, 1984).
[4] Cf. Por exemplo, a parte 33 da “Canção de Mim Mesmo”, ou o poema “Salut au Monde”.
[5] Cf. também a parte 15 da “Canção de Mim Mesmo”.
[6] Cf. Literary History of the United States, o ensaio sobre Walt Whitman, p.482; cf. também o texto crítico de Malcolm Cowley que serve de introdução à obra completa de WW.
[7] Cf. trechos citados de Folhas de Relva.
[8] Cf. Literary History of the United States, no ensaio sobre Walt Whitman, à p.474: “[...] mas quando livros em quantidade se tornaram acessíveis a ele e seus próprios propósitos tinham se fixado na ‘longa jornada’ do homem rumo à liberdade pessoal e ao completo auto-desenvolvimento, ele buscou a história, a ciência, [...] a filosofia, [...] suprindo sua imaginação com fatos, pra ser usados como ferramenta e armas e símbolos poéticos, [...] um arsenal intelectual para a democracia [...]“.
[9] Cf. R. W. Emerson, op. cit., p.1146: “Insista em você mesmo; nunca imite.”
[10] Cf. Levítico, 19:18; Mateus, 22:39; João, 13:34.
[11] Cf. Êxodo, 19:6; Epístola aos Romanos, 6:19; Tessalonissenses, 4:3-5.
[12] Cf. Mateus, 8:3-17, em que são narrados vários milagres operados por Jesus em suas andanças entre o povo.
[13] Cf. em “Cálamo”, no poema “Quem Sejas Pegando Minha Mão Agora”, o verso “Não sou o que supuseste, mas bem diferente.”
[14] Cf. Levítico, 20:1-27, sobre as faltas punidas com a morte.
[15] Cf. Mateus, 28:16-20, na passagem que termina deste modo: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.”
[16] Cf. William Shakespeare, The Complete Works, Oxford, Clarendon Press, 1988, p.757, soneto 55.