3.2.1: Democracia, Liberdade e Amor


3.2.1 Democracia

A democracia é cantada desde o início.  Na parte 1 da “Canção de Mim Mesmo”, vemos a intenção do poeta de ser o representante de um povo de i­guais[1]: “Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim, / E o que assumo, tu assumes, / Pois todo átomo pertencente a mim também per­tence a ti.” Ao compartilhar com seus leitores a cele­bração do “eu”, supondo que todos irão aceitar sua forma de agir, ele subtrai o próprio “eu” de uma posição central ou superior.  Ele irá cantar a si próprio assim como a todos os seus leitores ao mesmo tempo.  Embora isto produza na obra uma indistinção entre os sujeitos atuantes (o “eu” poético, o “outro”, “vocês”), ela é adequada ao contexto do poema.  É um indício da ampla empa­tia do poeta pela multidão, nos braços da qual ele parece literalmente se perder.  Por exemplo, no início da parte 16 o poeta canta:

Eu sou dos velhos e jovens, dos tolos assim como dos sábios,

Desatento aos outros, sempre a­tento com os outros,

Maternal assim como paternal, uma criança assim como um homem,

Recheado com o recheio que é tos­co e recheado com o recheio que é fino,

Um da Nação de muitas nações, igual ao menor e igual ao maior, [...]

Esta mistura, esta fusão, esta nebulosa que envolve o “eu” e o “outro” indica o infinito “mar de amor” que inunda o poeta e que é vertido sobre seus afetos.  Esta vastidão amorosa faz o poeta emprestar sua palavra a todos os seres humanos.  Todos têm direito a dar sua mensagem.  Inclusive aqueles que podem levar perigo ao men­sageiro.  No entanto, sem vacilar, ele aceita a incumbência, como diz no seguinte verso na mesma parte: “eu permito falar a todo risco” Qualquer que seja a conseqüência, o poeta a as­sume.  Isto demonstra muita confiança.  Confian­ça em si para empreender uma tarefa tão árdua, pois naquele momento o futuro da obra era impre­visível.  E confiança no ser humano, no futuro da espécie humana.  Tendo claro em sua mente que aquele que “[...] agiu bem no passado ou age bem hoje não é esse prodígio, / O prodígio é sempre e sempre como pode haver um homem vil ou um infi­el[2].”

O poeta estava ciente da maldade.  E não a ignorou.  Ela também faz parte do espírito huma­no.  Não era seu intento eliminá-la.  Ao contrá­rio, ele canta: “Eu não sou o poeta da bondade apenas, eu não declino de ser o poeta da maldade também.” Pois se considerava um “louvador de ódio e conciliação” e nunca[3] um “rejeitador”.  Enfim, ele queria a afirmação democrática acima de tudo.  Isto é concretizado através da palavra “En-Masse”, que representa o “todo” da humanida­de, um todo unido.  Esta palavra transmite sua fé inabalável no homem.  Por esta razão a esco­lheu dentre os termos modernos.  “Em massa” evi­dencia o sentido de democracia, que vem do grego “démos”, povo, e “krátos”, poder, domínio.  O poder do povo condicionado à ação em conjunto.  Toda a idéia de democracia é sintetizada em “Cá­lamo” no poema “Para Você Oh Democracia”: “VEM, eu farei o continente indissolúvel [...] / Eu farei cidades inseparáveis [...]“.  Ao final deste poema, o poeta chama a democracia de “ma femme” e de­clara-se seu servo e cantor.  Seu ilimitado amor o permitia.

Como desdobramento poético desta idéia, o poeta elabora os famosos “catálogos”, suas lon­gas descrições das massas em movimento.[4] Tanto as urbanas quanto as rurais em direção ao oeste, alargando as fronteiras do país, assim como as massas no mundo inteiro.  Foi a maneira que ele elaborou para representar literariamente a “mas­sa”.  Não bastava falar da multidão, havia ne­cessidade de colocá-la na obra.  E como é feito isto?  Através da individualização.  Ele toma uma multidão e a separa em indivíduos, descre­vendo-os um a um.  Deste modo, ele produz de fato uma multidão em sua obra.[5] Embora muito criticada, essa poesia descritiva jamais perde seu caráter especificamente poético.  Alguns críticos[6] a denominam de catálogo, outros de inventário.  No entanto, o poema mantém o ritmo e principalmente a vivacidade e o movimento tí­picos de grandes grupos em constante rotação. Contando ainda com a variedade das situações e dos personagens.  De tudo isso, o fundamental é o tratamento que o poeta dá a cada indivíduo, seja ele humano, animal ou vegetal.  Ele real­mente tem algo a dizer sobre cada um deles, um detalhe, um pormenor que os caracteriza e os destaca como indivíduos.[7] Por esta razão, soa inapropriado o uso depreciativo da palavra “catálogo”, mero alinhamento de nomes, para classificar a obra.  As descrições whitmanianas têm vida, têm ritmo, têm colorido humano.

3.2.2 Liberdade

É oportuno destacar neste momento a capa­cidade do poeta de tratar a “massa” individual­mente.  Pois é nos mesmos termos que ele aborda a questão da liberdade.  Este tema, nas Folhas de Grama, está intimamente ligado ao indivíduo, ao desenvolvimento pessoal, à busca, à realiza­ção de sonhos e desejos.  O poeta defende com paixão o direito de cada um à liberdade.  Em um de seus grandes momentos, que são muitos, o poe­ta escreve “Uma Hora de Demência e Gozo”, poema que faz parte de “Descendentes de Adão”.  Este poema expressa de forma magnífica o comportamen­to de uma mente livre, ou que pretende se liber­tar.  Vejamos como isto ocorre:

[...] Ter a mordaça removida da boca!

Sentir hoje ou qualquer dia que eu sou suficiente como eu sou.

Oh algo não-provado! algo num transe!

Escapar totalmente das âncoras e amarras dos outros!

Ficar livre! amar livre! correr temerário e perigoso!

Cortejar destruição com escár­nios, convites!

Ascender, saltar aos céus do amor indicado a mim!

Subir lá com minha alma inebria­da!

Perder-me se assim deve ser!

Alimentar o restante de vida com uma hora de plenitude e liberdade!

Com uma breve hora de demência e gozo.

Vemos nesta passagem um exercício da von­tade livre.  Cada um escolhendo seu destino.  Pois não é só o poeta que deseja “saltar” ao céu e buscar o seu amor.  Ele espalha este prazer a seus leitores.  Quem aceitar sua indicação terá tomado o caminho rumo ao desenvolvimento, à construção de sua liberdade pessoal.[8] Superando todos os medos e construindo suas oportunidades.  E, como ele ressalta, com a possibilidade de se “perder”, se assim for necessário.  Mas nunca se render ou se submeter à vontade de outrem.  O fator individualidade levado ao seu ponto máximo no verso “Escapar totalmente das âncoras e amar­ras dos outros”.  Aqui está em primeiro plano o homem e sua necessidade de ser livre, principal­mente de “amar livre”.

3.2.3 Amor-próprio e amor ao próximo

Com isso chegamos ao amor.  O amor-próprio e o amor ao próximo.  Por exemplo, o amor-pró­prio, que revela uma extrema confiança do poeta em si mesmo, é cantado desde os primeiros ver­sos: “Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim,”; “Eu, com trinta-e-sete anos de idade em perfeita saúde começo,/ Querendo não cessar até a morte.”  Esta esperança[9] é um dos “mottos” contínuos do poeta, juntamente com a democracia, a liberdade e, sem dúvida, o amor ao outro, reverso do amor a si mesmo.

Isto pode ser verificado, por exemplo, com um ensinamento bíblico bastante conhecido, o “Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo.[10]“, que ecoa nos seguintes ver­sos do poema “A Base de Toda a Metafísica” de Cálamo:

Porém sob Sócrates claro vejo, e sob Cristo o divino eu vejo,

O caro amor do homem pelo seu camarada, a atração de amigo a ami­go,

Dos bem-casados marido e mulher, de filhos e pais,

De cidade a cidade e terra a ter­ra.

Como se pode ver no trecho citado, há essa presença do amor bíblico na obra de Walt Whit­man.  Principalmente no que se refere ao cuidado com o outro, estendido a homens, mulheres, ani­mais, plantas e à terra como um todo.  Vê-se nesta passagem a exaltação do amor, tanto entre filhos do mesmo povo quanto entre povos de ter­ras diferentes.

Assim como ocorre na Bíblia, este amor chega ao ápice quando ele é divinizado.  Essa consideração divina para com o semelhante, que no Livro Sagrado parte de Deus[11] para o crente, também está presente em Folhas de Relva.  Neste caso, a divinização flui do poeta para seus ou­vintes / leitores.  Em primeiro lugar, o poeta considera seu corpo divino.  Em seguida, reparte esta bênção com quem ele encontra, como mostra este verso da “Canção de Mim Mesmo”, parte 24: “Divino eu sou por dentro e por fora, e eu faço sagrado o que quer que eu toque ou que me toque”.  O poeta chega às vezes a agir como um Cristo fa­zendo milagres,[12] tal é o poder que ele acredita possuir.  Com seu corpo atlético, ele se acha capaz de curar até enfermidades, e não apenas dar suporte moral às pessoas.  Por exemplo, nes­ta passagem, situada à parte 40 da “Canção de Mim Mesmo”, primeiro o poeta acorre a “qualquer mori­bundo” e manda o “médico e o padre para casa”.  Em seguida, ele “agarra o declinante” e o ergue com “vontade irresistível”, colocando-o sobre seus ombros.  Depois dá-lhe forças com seu “hausto” e, após obstruir mais um caminho para o túmulo, diz ao doente que “Nem dúvida, nem de­cesso” o atormentarão.  Por fim, promete ao do­ente que, na manhã seguinte, ele se erguerá (o doente) e perceberá que o poeta está dizendo a verdade.  Em suma, promete a cura numa cena bi­blicamente milagrosa.  Através de seus poemas, ele transmite esta intenção saneadora.

Entretanto, como o próprio poeta adverte, é preciso ter cuidado com sua poesia.  Ela não é dogmática e ele não é sempre o mesmo, ele às vezes pode ser bem “diferente” do que imagina­mos.[13] Por isso, é necessário ressaltar que a influência da Bíblia é sempre no sentido positi­vo, sem apelos dogmáticos ou punitivos, como prega em muitas partes o Livro Sagrado.[14] O poeta utiliza essas noções bíblicas para dizer que seu amor pode ser tão grande como o de Je­sus.  Um amor que alcança toda a humanidade, que vai de homem a homem, não importa em que terra estejam.

Ele confia tanto em si que chega ao ponto de escrever mensagens às gerações futuras.  Ele lega aos séculos por vir a sua palavra de profe­ta, com a certeza absoluta de que será bem rece­bido.  Fazendo uma ponte entre o passado e o presente, e lançando sua palavra ao futuro, o último poema do livro “Cálamo”, intitulado “Cheio de Vida Agora”, reafirma o verso do trecho de abertura de “Canção de Mim Mesmo”, “[...] começo, / Queren­do não cessar até a morte.” O poema canta:

CHEIO de vida agora, compacto, visível,

Eu, quarenta anos de idade no octogésimo-terceiro ano dos Esta­dos,

A alguém um século adiante ou qualquer número de séculos adiante,

A você ainda inato estas, buscan­do-lhe.

Quando você ler estas eu que era visível me tornei invisível,

Agora é você, compacto, visível, percebendo meus poemas, buscando-me,

Fantasiando quão feliz você seria se eu pudesse estar contigo  e me tornar seu camarada;

Que seja como se eu estivesse contigo. (Não esteja certo demais mas eu estou contigo agora.)

Há realmente algo bíblico[15] nesta afirma­ção.  A promessa da presença.  É como uma alian­ça divina.  Se o poeta afirma que estará com seu leitor “qualquer número de séculos adiante”, isto significa a eternidade.  Que é diferente, por exemplo, da “eternidade” prometida por Shakespeare[16] à sua amiga.  A posteridade da ama­da depende do poema.  Enquanto a arte viver, a memória daquele amor vai ser mantida.  Já o can­tor de “Cálamo” tem certeza que estará presente em qualquer tempo no futuro.  Por isso seu verso prediz com precisão o acontecimento por vir.  É um amor ao próximo transtemporal.  Felicidade e camaradagem eternizadas pela palavra.


[1] Cf. Literary History of the United States, New York, The MacMillan Company, 1948, vol. 1, p.478, no ensaio destinado a Walt Whitman, no qual o crítico destaca este trecho do poema como uma “passagem-chave” para entender que o poeta desejava ser o representante de todos, a “voz da democracia” a “todo risco”.

[2] Este verso aparece na parte 22 da “Canção de Mim Mesmo”, trecho em que o poeta afirma que seu modo de ser não é o de “descobridor de defeitos”, pois a virtude e o vício lhe são indiferentes. Cf. R. W. Emerson, Self-Reliance, in The American Tradition in Literature, New York, Grosset and Dunlap, Inc., p.1130: “Confia em ti: todo coração vibra com essa corda de ferro.”

[3] Cf. Levítico, 19:16 – “Não serás um divulgador de maledicência a respeito dos teus e não sujeitarás a julgamento o sangue do teu próximo.” A Bíblia teve grande influência sobre WW, inclusive sobre sua forma de escrever, sua linguagem abismal, repleta de cortes abruptos (Monteiro, 1984).

[4] Cf. Por exemplo, a parte 33 da “Canção de Mim Mesmo”, ou o poema “Salut au Monde”.

[5] Cf. também a parte 15 da “Canção de Mim Mesmo”.

[6] Cf. Literary History of the United States, o ensaio sobre Walt Whitman, p.482; cf. também o texto crítico de Malcolm Cowley que serve de introdução à obra completa de WW.

[7] Cf. trechos citados de Folhas de Relva.

[8] Cf. Literary History of the United States, no ensaio sobre Walt Whitman, à p.474: “[...] mas quando livros em quantidade se tornaram acessíveis a ele e seus próprios propósitos tinham se fixado na ‘longa jornada’ do homem rumo à liberdade pessoal e ao completo auto-desenvolvimento, ele buscou a história, a ciência, [...] a filosofia, [...] suprindo sua imaginação com fatos, pra ser usados como ferramenta e armas e símbolos poéticos, [...] um arsenal intelectual para a democracia [...]“.

[9] Cf. R. W. Emerson, op. cit., p.1146: “Insista em você mesmo; nunca imite.”

[10] Cf. Levítico, 19:18; Mateus, 22:39; João, 13:34.

[11] Cf. Êxodo, 19:6; Epístola aos Romanos, 6:19; Tessalonissenses, 4:3-5.

[12] Cf. Mateus, 8:3-17, em que são narrados vários milagres operados por Jesus em suas andanças entre o povo.

[13] Cf. em “Cálamo”, no poema “Quem Sejas Pegando Minha Mão Agora”, o verso “Não sou o que supuseste, mas bem diferente.”

[14] Cf. Levítico, 20:1-27, sobre as faltas punidas com a morte.

[15] Cf. Mateus, 28:16-20, na passagem que termina deste modo: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.”

[16] Cf. William Shakespeare, The Complete Works, Oxford, Clarendon Press, 1988, p.757, soneto 55.

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