Tomando como base as definições de Fernando Pessoa para poesia lírica e dramática, podemos dizer que a voz poética de Folhas de Relva transborda do lirismo para o drama. Ou seja, o poeta de Folhas de Relva não podia mais se conter no ambiente individualmente restrito de um lirismo em “primeiro grau”. Porque este, diferentemente da poesia narrativa e da dramática, expressa os “sentimentos e emoções” do poeta “sem deles querer tirar conclusões gerais” ou mesmo dar a eles qualquer sentido maior do que serem “simples emoções e sentimentos”. É uma voz simples e, portanto, una.
Por outro lado, quando o poeta lírico expressa “estados de alma” que não tem, mas que é capaz de sentir por sua extrema sensibilidade ou ampla empatia, significa que seu eu-poético se encontra esfacelado. Ou, como diz Fernando Pessoa (Pessoa, s.d.), “despersonalizado”. Tomemos como exemplos significativos deste tipo de comportamento os seguintes trechos da “Canção de Mim Mesmo”, nos quais o poeta afirma uma completa identificação com o sentir alheio, ou completa “despersonalização”:
As partes 9, 10 e 11 da “Canção de Mim Mesmo”, principalmente a 11, na qual o poeta canta uma senhora que observa rapazes se banhando na praia:
*
Aonde você vai, senhora? pois eu lhe vejo,/ Você espalha água lá, contudo, está estanque em seu quarto.
[...]
Partilhador de influxo e efluxo eu, louvador de ódio e conciliação,
Louvador de meigos e daqueles que dormem com braços entrelaçados.
[...]
Eu sou aquele que atesta empatia, (parte 23 da “Canção de Mim Mesmo”)
[...]
Através de mim muitas vozes longamente mudas, (parte 24 da “Canção de Mim Mesmo”)
*
O poema “Fora do Berço Balançando sem Cessar”, do livro Detrito Marinho, que é essencialmente um texto dramático, pois há três personagens claramente definidos, como podemos ver por este trecho:
*
Eu vi, ouvi a intervalos o que restou, o macho,
O hóspede solitário do Alabama.
Soprem! soprem! soprem!
Enfunem virações pela praia de Paumanok;
Eu paro e paro até que soprem meu par pra mim.
*
No qual um menino relata uma estória de amor entre dois pássaros, com as falas diferenciadas inclusive graficamente (o poema está incluído em anexo).
*
Nestes exemplos, podemos dizer que há uma crescente “despersonalização”, que atinge o “grau” mais alto com o poema “Fora do Berço Balançando sem Cessar”, que apresenta graficamente as falas dos personagens, isto é, pode ser encenado teatralmente. Baseando nosso raciocínio na concepção de Fernando Pessoa, podemos afirmar que o poeta norte-americano atinge o “quarto grau”, ou seja, cai na “poesia dramática”, embora não permaneça nela sempre. Whitman vai continuar “dramaticamente” poeta lírico.
3.2.5 Musicalidade
Quando Gilberto Freyre chamou o autor de Folhas de Relva de “homem-orquestra, e não uma voz só”, ele tinha motivos reais para fazê-lo. Um deles é a inspiração musical que o texto demonstra. Há uma atmosfera orquestral na organização da obra. São muitas as referências explícitas às mais variadas formas de composição musical e de canto. O poeta anuncia de que modo ele chega e a quem ele dirige seu canto: “Com música forte eu venho, com tambores e cornetas, / Eu não toco marchas só para vencedores aceitos, eu toco marchas para vencidos e assassinados.” Para estes especialmente ele repete: “Eu toco e retumbo pelos mortos,/ Eu sopro meus bocais o mais alto e alegre pra eles.” Porque a música é uma forma de arte que transcende os limites de qualquer língua. Ela é universal e atinge a alma diretamente, sem a intermediação de conceitos e imagens. E o poeta almeja estender sua palavra a todos através de sua canção. Aspira a transmitir sua mensagem numa linguagem poética compreensível a todos.
Entre as muitas formas de música, ele revela uma predileção pela ópera. Esta é a forma musical que expressa com maior plenitude a emoção humana. Porque nela é possível associar à música um poema cantado e uma encenação. Isto é, levando em consideração que a música naturalmente realça, eleva, dá um maior significado às ações humanas, podemos dizer que este efeito será ainda maior se as três formas de arte – poesia, dramaturgia, música – forem apresentados ao mesmo tempo.
Na parte 26 da “Canção de Mim Mesmo”, o poeta diz: “Eu ouço o coro, é uma ópera dramática, / Ah isto de fato é música-isto condiz comigo.” Ele se delicia e se regozija com a interpretação do tenor e da soprano e é levado mais longe que a “órbita de urano” através da música da orquestra, sem falar nos profundos sentimentos então despertados. Esta paixão por esta forma musical chega ao ápice quando o poeta escreve uma ópera. Ou um poema para ser cantado. O argumento escrito da peça musical. Este poema se chama “Fora do Berço Balançando sem Cessar”, do livro Detrito Marinho. Como esclarece o texto crítico do Literary History of the United States (Walt Whitman, 1948, p.492) sobre este poema:
Igualmente óbvia, quando procurada, é a estrutura do todo, que é a de uma ópera – abertura, recitativo, meditação musical, e o canto do pássaro como a lírica, até (como o próprio poeta diz) “a ária declina”, o poema conclui com um “finale”.
O trecho lírico está definido pelas letras em itálico, que visualmente o diferencia da parte narrativa (recitativa). As outras partes também estão claramente definidas, como ressalta o crítico.
Há dois personagens atuando em planos diferentes. Uma voz é a do narrador, que conta uma história de sua infância, quando perambulava pelas praias. E a outra é a do personagem objeto da narração, que canta a perda de sua amada. No final, há uma fusão de sentimentos. O narrador solidariza-se com a dor de seu personagem e apreende o sentimento que ele expressa. O poema está incluído em anexo.
Em relação às outras formas de música, o poeta utiliza dois termos para se referir às suas composições. Estes são canção, “song”, e cântico, “chant”. A canção tanto pode ser uma composição musical curta quanto uma composição poética cantada com acompanhamento musical. Podemos definir a “Canção de Mim Mesmo” como uma longuíssima canção composta de algumas dezenas de pequenas canções. Que são composições com uma estrutura livre, isto é, cada estrofe pode variar assim como a métrica e o tamanho. Por outro lado, o cântico possui uma estrutura fixa e repetitiva, típica de hinos religiosos, como os Salmos, o Eclesiastes ou o próprio Cântico dos Cânticos, todos da Bíblia. Neste caso, existe uma melodia conhecida à qual são adaptados diferentes hinos. Esta diferenciação é importante na medida em que o poeta utiliza termos distintos para se referir a trechos distintos de sua obra. Quando ele deseja, por exemplo, ressaltar quão divino é o corpo assim como a alma, ou como o corpo está em igualdade com o espírito, ele diz que canta um cântico. Isto é mostrado, por exemplo, na parte 21 da “Canção de Mim Mesmo”: “Eu canto o cântico de dilatação ou orgulho”. Aqui, ele celebra um equilíbrio entre o céu e o inferno e entre o homem e a mulher.
Cf. Gilberto Freyre, O Camarada Whitman, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1948. Conferência lida pelo sociólogo na Sociedade dos Amigos da América, no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1947.
Fernando Pessoa, Páginas sobre Literatura e Estética, Portugal, Public. Europa-América, s.d., p.57.
No capítulo 3 da parte 2, o autor define, além de três subespécies de poesia lírica – “a heróica, a elegíaca e a lírica propriamente dita” -, quatro graus de lirismo: no primeiro, o poeta “exprime espontânea ou reflectidamente” um temperamento “intenso e emotivo”; no segundo, o poeta é mais “intelectual ou imaginativo”, seus poemas abrangem “assuntos diversos”, mas são unificados pelo “temperamento e estilo”; ele varia “nos tipos de emoção” mas não na “maneira de sentir.”; no terceiro, o poeta já é mais intelectual ainda, e começa a “despersonalizar-se, a sentir, não já porque sente, mas porque pensa que sente; a sentir estados de alma que realmente não tem, simplesmente porque os compreeende. Estamos na antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima. O temperamento do poeta (…) está dissolvido pela inteligência. A sua obra será unificada só pelo estilo, último reduto da sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo.”; no quarto grau, o mais raro, o poeta, “mais intelectual ainda mas igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização. Não só sente, mas vive, os estados de alma que não tem diretamente. Em grande número de casos, cairá na poesia dramática,” mas num “ou outro caso continuará sendo, embora dramaticamente, poeta lírico.”
Utilizamos aqui a definição de música feita por Schopenhauer, citado por Friedrich Nietzsche, Obras Incompletas, São Paulo, Abril Cultural, 1983, p.15: “A música é, portanto se considerada como expressão do mundo, uma linguagem universal em sumo grau [...] Sua universalidade, porém, não é de modo algum aquela universalidade vazia da abstração [...] Todos os possíveis esforços, emoções da vontade, tudo aquilo que se passa no interior do homem, e que a razão lança no amplo conceito negativo de sentimento, pode exprimir-se pelas infinitas melodias possíveis [...]“.
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