3.2.4: Lirismo, Dramaticidade, Musicalidade


3.2.4 Lirismo e dramaticidade

Tomando como base as definições de Fernan­do Pessoa para poesia lírica e dramática, podemos dizer que a voz poética de Folhas de Relva transborda do lirismo para o drama.  Ou seja, o poeta de Folhas de Relva não podia mais se con­ter no ambiente individualmente restrito de um lirismo em “primeiro grau”.  Porque este, dife­rentemente da poesia narrativa e da dramática, expressa os “sentimentos e emoções” do poeta “sem deles querer tirar conclusões gerais” ou mesmo dar a eles qualquer sentido maior do que serem “simples emoções e sentimentos”.  É uma voz simples e, portanto, una.

Por outro lado, quando o poeta lírico ex­pressa “estados de alma” que não tem, mas que é capaz de sentir por sua extrema sensibilidade ou ampla empatia, significa que seu eu-poético se encontra esfacelado.  Ou, como diz Fernando Pessoa (Pessoa, s.d.), “despersonalizado”.  To­memos como exemplos significativos deste tipo de comportamento os seguintes trechos da “Canção de Mim Mesmo”, nos quais o poeta afirma uma completa iden­tificação com o sentir alheio, ou completa “des­personalização”:

As partes 9, 10 e 11 da “Canção de Mim Mesmo”, principalmente a 11, na qual o poeta canta uma senhora que observa rapazes se banhando na praia:

*

Aon­de você vai, senhora? pois eu lhe vejo,/ Você espalha água lá, contu­do, está estanque em seu quarto.

[...]

Partilhador de influxo e efluxo eu, louvador de ódio e conciliação,

Louvador de meigos e daqueles que dormem com braços entrelaçados.

[...]

Eu sou aquele que atesta empatia, (parte 23 da “Canção de Mim Mesmo”)

[...]

Através de mim muitas vozes lon­gamente mudas, (parte 24 da “Canção de Mim Mesmo”)

*

O poema “Fora do Berço Balançando sem Cessar”, do livro Detrito Marinho, que é essencialmente um texto dramáti­co, pois há três personagens clara­mente definidos, como podemos ver por este trecho:

*

Eu vi, ouvi a intervalos o que restou, o macho,

O hóspede solitário do Alabama.

Soprem! soprem! soprem!

Enfunem virações pela praia de Paumanok;

Eu paro e paro até que soprem meu par pra mim.

*

No qual um menino relata uma es­tória de amor entre dois pássaros, com as falas diferenciadas inclusi­ve graficamente (o poema está in­cluído em anexo).

*

Nestes exemplos, podemos dizer que há uma crescente “despersonalização”, que atinge o “grau” mais alto com o poema “Fora do Berço Ba­lançando sem Cessar”, que apresenta graficamente as falas dos personagens, isto é, pode ser ence­nado teatralmente.  Baseando nosso raciocínio na concepção de Fernando Pessoa, podemos afirmar que o poeta norte-americano atinge o “quarto grau”, ou seja, cai na “poesia dramática”, embo­ra não permaneça nela sempre.  Whitman vai con­tinuar “dramaticamente” poeta lírico.

3.2.5 Musicalidade

Quando Gilberto Freyre chamou o autor de Folhas de Relva de “homem-orquestra, e não uma voz só”, ele tinha motivos reais para fazê-lo.  Um deles é a inspiração musical que o texto demonstra.  Há uma atmosfera orquestral na orga­nização da obra.  São muitas as referências ex­plícitas às mais variadas formas de composição musical e de canto.  O poeta anuncia de que modo ele chega e a quem ele dirige seu canto: “Com música forte eu ve­nho, com tambores e cornetas, / Eu não toco mar­chas só para vencedores aceitos, eu toco marchas para vencidos e assassinados.” Para estes espe­cialmente ele repete: “Eu toco e retumbo pelos mortos,/ Eu sopro meus bocais o mais alto e ale­gre pra eles.”  Porque a música é uma forma de arte que transcende os limites de qualquer lín­gua.  Ela é universal e atinge a alma diretamen­te, sem a intermediação de conceitos e imagens. E o poeta almeja estender sua palavra a todos através de sua canção.  Aspira a transmitir sua mensagem numa linguagem poética compreensível a todos.

Entre as muitas formas de música, ele re­vela uma predileção pela ópera.   Esta é a for­ma musical que expressa com maior plenitude a emoção humana.  Porque nela é possível associar à música um poema cantado e uma encenação.  Isto é, levando em consideração que a música natural­mente realça, eleva, dá um maior significado às ações humanas, podemos dizer que este efeito será ainda maior se as três formas de arte – poesia, dramaturgia, música – forem apresentados ao mesmo tempo.

Na parte 26 da “Canção de Mim Mesmo”, o poeta diz: “Eu ouço o coro, é uma ópera dramática, / Ah isto de fato é música-isto condiz comigo.” Ele se delicia e se regozija com a interpretação do tenor e da soprano e é levado mais longe que a “órbita de urano” através da música da orques­tra, sem falar nos profundos sentimentos  então despertados.  Esta paixão por esta forma musical chega ao ápice quando o poeta escreve uma ópera.  Ou um poema para ser cantado.  O argumento es­crito da peça musical.  Este poema se chama “Fora do Berço Balançando sem Cessar”, do livro Detrito Marinho.  Como esclarece o texto crítico do Literary History of the United States (Walt Whitman, 1948, p.492) sobre este poema:

Igualmente óbvia, quando procu­rada, é a estrutura do todo, que é a de uma ópera – abertura, recita­tivo, meditação musical, e o canto do pássaro como a lírica, até (como o próprio poeta diz) “a ária decli­na”, o poema conclui com um “fina­le”.

O trecho lírico está definido pelas letras em itálico, que visualmente o diferencia da par­te narrativa (recitativa).  As outras partes também estão claramente definidas, como ressalta o crítico.

Há dois personagens atuando em planos diferentes.  Uma voz é a do narrador, que conta uma história de sua infância, quando perambulava pelas praias.   E a outra é a do personagem ob­jeto da narração, que canta a perda de sua ama­da.  No final, há uma fusão de sentimentos.  O narrador solidariza-se com a dor de seu persona­gem e apreende o sentimento que ele expressa.  O poema está incluído em anexo.

Em relação às outras formas de música, o poeta utiliza dois termos para se referir às suas composições.  Estes são canção, “song”, e cântico, “chant”.  A canção tanto pode ser uma composição musical curta quanto uma composição poética cantada com acompanhamento musical.    Podemos definir a “Canção de Mim Mesmo” como uma lon­guíssima canção composta de algumas dezenas de pequenas canções.  Que são composições com uma estrutura livre, isto é, cada estrofe pode vari­ar assim como a métrica e o tamanho.  Por outro lado, o cântico possui uma estrutura fixa e re­petitiva, típica de hinos religiosos, como os Salmos, o Eclesiastes ou o próprio Cântico dos Cânticos, todos da Bíblia.  Neste caso, existe uma melodia conhecida à qual são adaptados dife­rentes hinos.  Esta diferenciação é importante na medida em que o poeta utiliza termos distin­tos para se referir a trechos distintos de sua obra.  Quando ele deseja, por exemplo, ressaltar quão divino é o corpo assim como a alma, ou como o corpo está em igualdade com o espírito, ele diz que canta um cântico.  Isto é mostrado, por exemplo, na parte 21 da “Canção de Mim Mesmo”: “Eu canto o cântico de dilatação ou orgulho”.  Aqui, ele celebra um equilíbrio entre o céu e o inferno e entre o homem e a mulher.


Cf. Gilberto Freyre, O Camarada Whitman, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1948. Conferência lida pelo sociólogo na Sociedade dos Amigos da América, no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1947.


Fernando Pessoa, Páginas sobre Literatura e Estética, Portugal, Public. Europa-América, s.d., p.57.

No capítulo 3 da parte 2, o autor define, além de três subespécies de poesia lírica – “a heróica, a elegía­ca e a lírica propriamente dita” -, quatro graus de li­rismo: no primeiro, o poeta “exprime espontânea ou re­flectidamente” um temperamento “intenso e emotivo”; no segundo, o poeta é mais “intelectual ou imaginativo”, seus poemas abrangem “assuntos diversos”, mas são unifi­cados pelo “temperamento e estilo”; ele varia “nos tipos de emoção” mas não na “maneira de sentir.”; no terceiro, o poeta já é mais intelectual ainda, e começa a “desper­sonalizar-se, a sentir, não já porque sente, mas porque pensa que sente; a sentir estados de alma que realmente não tem, simplesmente porque os compreeende.  Estamos na antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima.  O temperamento do poeta (…) está dissolvido pela inte­ligência. A sua obra será unificada só pelo estilo, últi­mo reduto da sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo.”; no quarto grau, o mais raro, o poeta, “mais intelectual ainda mas igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização.  Não só sente, mas vive, os estados de alma que não tem diretamente.  Em grande núme­ro de casos, cairá na poesia dramática,” mas num “ou ou­tro caso continuará sendo, embora dramaticamente, poeta lírico.”

Utilizamos aqui a definição de música feita por Schopenhauer, citado por Friedrich Nietzsche, Obras Incompletas, São Paulo, Abril Cultural, 1983, p.15: “A música é, portanto se considerada como expressão do mundo, uma linguagem universal em sumo grau [...] Sua universalidade, porém, não é de modo algum aquela universalidade vazia da abstração [...] Todos os possíveis esforços, emoções da vontade, tudo aquilo que se passa no interior do homem, e que a razão lança no amplo conceito negativo de sentimento, pode exprimir-se pelas infinitas melodias possíveis [...]“.

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