Este tipo de vegetação rasteira ocupa um lugar especial nas Folhas de Relva, já a partir do título da obra. Em princípio (“Canção de Mim Mesmo”, parte 6), o poeta não sabe o que é grama, ele apenas supõe que seja a “flâmula” do seu “ânimo” (“the flag of my disposition”).
Nos versos seguintes, o poeta cita várias coisas que a grama poderia ser, como o “lenço do Senhor”, o “neném germinado da vegetação” ou ainda um “hieróglifo uniforme”, que pode brotar entre qualquer tipo de gente. Após mencionar mais alguns significados para a grama, ele finalmente dá um indício da importância que a vegetação rasteira irá tomar dentro da obra.
Isto é, ao indagar sobre o destino das pessoas falecidas, ele diz que o “menor broto” indica que não existe morte. Que qualquer broto é um sinal de imortalidade. A partir deste instante, até o findar de sua vida, o poeta sempre irá se referir à grama como um dos seus símbolos de união entre os homens. Por exemplo, num dos trechos mais famosos da “Canção de Mim Mesmo” (parte 52, a última), o poeta irá afirmar: “Lego-me para a lama pra germinar na grama que eu amo” e se o leitor quiser achá-lo que procure debaixo de seus próprios sapatos, que um dia o poeta estará aguardando-o.
Dentro do contexto do poema, entendemos que a grama é um elemento de universalização da relação humana. Não há lugar no mundo que não tenha um gramado. Se no deserto, há o oásis, tapete verde onde descansam e partilham aqueles que buscam o alívio para suas penas, homens, animais e plantas. Se em locais onde há abundância de água, o gramado adorna os parques, as pradarias, as pastagens onde se alimentam os animais e engordam os rebanhos para o alimento humano.
Mas o alcance universal está no fato dela ser a vegetação mais comum, mais numerosa, mais uniforme, mais capaz de representar a grande massa que chamamos de humanidade. Não que ela seja sempre verde, ou indistinta, ou pisoteada. A grama também é a vegetação mais resistente, mais persistente, a que brota com mais vigor, a que é capaz, como o bambu, de atingir altíssimas alturas em reduzidíssimo período de tempo. Ou, por outro lado, de sufocar, pelo excesso, outras espécies. Temos aqui o significado múltiplo da grama. Sem esquecer que ela também está nos sepulcros, adornando o repouso dos mortos.
Presente nas regiões mais remotas do mundo, sempre com um vigor capaz de superar as próprias construções humanas, pois qualquer ruína logo é tomada por este tipo de vegetação, a grama vai assumir o papel de transmissor da própria imortalidade do homem. Vai ser nela que a alma encarnará, e será dela que irá renascer, bastando para isso que busquemos aí a alma daqueles que desvaneceram.
Em suma, este vegetal monocotiledôneo, com suas folhas em forma de espada, que já nasce vertical em busca da luz, furando com sua frágil fibra verde a dura crosta terrestre, se afigura, pelo que vimos acima, como uma imagem perfeita da concepção humanística de Folhas de Relva.
Lembrando o detalhe fundamental de que a “leaf” pode ser tanto uma folha de planta quanto uma folha de papel, donde a similitude entre gramado e livro. As folhas de um livro são como uma relva na qual podemos nos deitar. Ou um gramado é como um livro no qual podemos aprender a lição diária da vida.
Neste caso, vale a pena mostrar como o poeta relaciona três aspectos da existência num único plano. Primeiro, a vida. Segundo, a morte. Estes dois aspectos da existência humana aparecem na parte 6 da “Canção de Mim Mesmo”. Lá o poeta diz que deseja traduzir as imagens sobre as pessoas que morreram e que elas estão vivas em algum lugar. E que um brotinho, na sua crença de que ao se entregar à terra poderá renascer nas plantas, mostra a inexistência da morte. Ele continua dizendo que:
E se alguma vez houve [morte] ela levou à vida, e [a morte] não espera até o fim [da vida] para agarrá-la,
E [a morte] cessou no momento que a vida veio.
Tudo avança e dilata, nada malogra,
E morrer é diferente do que supõe-se, e dá mais sorte.”
7
Alguém supôs que é uma sorte nascer?
Eu me apresso a informar a ele ou ela que morrer é a mesma coisa…
A visão do poeta sobre vida e mortalidade é calcada na continuidade do ser. Ele acredita que essa relação baseia-se em equivalência. Elas são potências semelhantes, intercambiáveis. Não existe qualquer sombra de temor ao desconhecido, já que para ele a morte não é um “desconhecido”, é somente a outra face da vida, assim como a noite é a contraparte do dia.
O terceiro elemento é o sexo, que se enrama tanto numa direção quanto na outra. Por exemplo, ele diz, em “Descendentes de Adão”, no poema “Uma Mulher Espera Por Mim”, que o “Sexo abarca tudo, corpos, almas”. Já em “Cálamo”, no poema “Pastagem Cheirosa do meu Peito”, ele diz que o amor e a morte “estão inseparavelmente cingidos”. Canta o poeta, numa passagem da parte 24 da “Canção de Mim Mesmo”:
Através de mim vozes proibidas,
Vozes de sexos e luxúrias, vozes veladas e eu removo o véu,
Vozes indecentes por mim clareadas e transfiguradas.
Eu não pressiono meus dedos sobre minha boca,
Eu me mantenho delicado tanto nos intestinos quanto na cabeça e no coração,
A cópula não é mais viçosa pra mim do que a morte.
O último verso desta passagem diz assim no original: “Copulation is no more rank to me than death is.” (grifo meu). O problema aqui é decifrar a posição do poeta em relação a sexo e morte. Porque “rank” é um termo de múltiplos sentidos. Tomando-o como adjetivo, ele pode significar: viçoso, exuberante, luxuriante, extremamente fértil, rançoso, de mau gosto, indecente.
Chegamos então a um impasse, pois o sentido da palavra varia numa escala, num “ranque”, de ótimo a péssimo. A lista de adjetivos positivos, de viçoso a fértil, são aplicados a plantas, quando estas estão extremamente viçosas. Já os negativos se aplicam a gosto, cheiro ou qualidade, principalmente péssima qualidade. Deste modo, nos achamos numa situação bastante espinhosa. Seria a cópula tão boa quanto a morte ou tão ruim? A dificuldade aumenta se analisarmos o contexto deste verso. Na “estrofe” anterior, o poeta menciona “Vozes indecentes por mim clareadas e transfiguradas” (grifo meu). Na estrofe seguinte, após enunciar sua crença na “carne e nos apetites”, ele se considera “Divino” por “dentro e por fora”. E, no meio, está sua visão da “cópula”.
Entretanto, há um detalhe que pode nos auxiliar na definição da palavra que usaremos no verso acima. E é exatamente o significado que a morte assume nos versos de Folhas de Relva. Como pode ser verificado pelos versos da parte 6 da “Canção de Mim Mesmo” citados acima, o poeta concebe a morte como um ato de sorte, assim como a vida, e que morrer, na verdade, não acontece de fato, visto que podemos renascer através até, e principalmente, das plantas, no caso, a grama. Então, considerando que a grama ocupa uma posição de extrema importância na concepção de Folhas de Relva, e considerando que os adjetivos com significados positivos se referem todos a plantas, no que concerne a folhas, haveremos de concordar que “rank” só pode ter uma tradução. E esta será feita com base na escolha do melhor termo entre aqueles do primeiro grupo semântico. Deste modo, acabamos optando por “viçosa”.