3.2.7: Linguagem coloquial e gíria


3.2.7 Linguagem coloquial e gíria

Examinaremos nesta seção o uso da lingua­gem coloquial, com destaque para a gíria, na obra de três autores: Oswald de Andrade, Maiakó­viski e Whitman.  Nosso propósito é mostrar como esses poetas, embora escrevendo em países dife­rentes, encararam de modo semelhante o processo da “produção poética” (Campos, 1976).  Nos refe­rimos aqui ao “procedimento” (“como fazer um poema”) do poeta e ao “material” (“palavras”) com o qual ele trabalha.  Isto significa, com relação aos autores citados, expor a maneira especial que eles adotaram no tratamento da lín­gua.

Iniciando por Oswald e seu “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” (Andrade, 1990).  Neste docu­mento ele defende uma “língua sem arcaísmos. Sem erudição. Natural e neológica”, acolhendo para a literatura a “contribuição milionária de todos os erros.” Passando a enxergar a nova realidade do mundo com “olhos livres”.

Oswald batalhava para que ela acontecesse sem fórmulas pré-fabricadas, para que a “contem­porânea expressão do mundo” fosse exercida em toda a plenitude.  Seu desejo era que as pessoas fossem apenas “brasileiros” de sua própria épo­ca.  “Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos.” Mas técnicos, inventores, em suma, modernos.  Contra a erudição sem finalidade que gera “indi­gestões de sabedoria”.  Serrando o engessamento lexical, buscando o neologismo.  Sendo experi­mental.

Para isso ele propõe a liberdade lingüís­tica.  A liberdade da fala.  O indivíduo reve­lando-se através de sua linguagem, mostrando que o modo de falar indica um modo de ser.  Levando a língua de volta ao seu dono, ao falante.

Um desdobramento desta idéia pode ser e­xemplificado através da obra do Professor Luft (Luft, 1985).  Diz este: “Toda a língua (…) é questão de USO”.  Toda mudança lingüística ocor­re a partir do usuário da língua, do falante.  É o “costume” que determina a norma da língua e não o contrário.  E este posicionamento moderno de um gramático com relação à língua coincide com a prática oswaldiana.  Fica assim reconheci­da de modo teórico a prática do poeta.

E o princípio da valorização da “origina­lidade nativa” (Andrade, 1990) em oposição ao “assunto invasor” também se dará através da lín­gua.  Ou seja, fazer poesia com nossos próprios motivos, como os “casebres de açafrão”, os “cor­dões de Botafogo”, o “sertão”,  ser “regional e puro”, representar a época, expor o sentimento do momento com o material adequado ao momento, tudo isso vai ser realizado na língua.

Porque o material disponível para um poeta está na língua, é a língua.  E a “contemporânea expressão do mundo” não mais condizia com a lin­guagem “cultivada pelos repetidores pomposos [...] do parnasianismo francês” (Andrade, 1990).  Porque a língua não é uma “realidade à parte, algo que se esquece tão logo se saia da sala de aula” (Luft, 1985).  A língua está viva, ela “É VIDA”, ela nos acompanha aonde formos.   Ela é um bem pessoal.  A autonomia e a liberdade do indivíduo passam pela linguagem que ele utiliza.  É sua maneira de mostrar seu pensamento sobre o mundo.   É seu meio de ser sujeito, não alvo das ações de outrem.

E seus costumes lingüísticos, as invenções léxicas, as combinações fonéticas, a gíria, tudo isso compôe o universo cotidiano que é o materi­al do escritor (romancista ou poeta).  Tudo isso é o seu paraíso.  O escritor coleciona da fala popular maneiras inusitadas de nomear objetos, de se referir a pessoas e situações.  É onde ele aprende sintaxe atravessada, a regência inverti­da, um verbo enviesado.  Os tipos de invenção que ampliam a capacidade da língua, alargam as fronteiras semânticas.  Toda a obra de Oswald está marcada pela renovação lingüística, tendo a gíria como uma de suas fontes inspiradoras (An­drade, 1990).

Abordemos a situação de Maiakóvski, o poe­ta russo. Assim como Oswald, a fala popular afetou-lhe de forma permanente.  Note-se a res­salva que Boris Schnaiderman faz na introdução do livro Maiakóvski, Poemas (Boris, Augusto, Haroldo, 1992) com respeito ao coloquial.  Ele diz que o poeta russo emprega de tal maneira a linguagem coloquial, de modo “tão característico de um momento e de uma situação, que seria vão reproduzir sua obra integralmente em outra lín­gua.” Maiakóvski (Augusto, Haroldo, Boris, 1985) denominou o povo de “inventa-línguas”.  Exatamente por essa habilidade incrível que o povo tem para criar novas nuances semânticas a cada instante.

E o que ele chama de elemento específico, coloquial, “característico de um momento” e que talvez não possa ser entendido por outra cultura indica, entre outras fontes, a utilização da gíria.

Porque a gíria, também denominada de “ca­lão” (Luft, 1991), é a “linguagem especial de um grupo, profissão ou classe social”, é usada por “malandros e ladrões”, ou seja, é uma “linguagem baixa”.

Por outro lado, a gramática tradicional (Cegalla, 1992, p. 533) aponta a “nobreza” da linguagem como a “virtude” que manterá o escri­tor longe dos “termos chulos e torpes”, longe dos “palavrões e chocantes pornografias” que atentam contra a “dignidade da palavra humana.” Enfim, a gramática afirma que a “arte não dis­pensa o véu do pudor e do decoro.”

Em contrapartida, em Maiakóvski (Schnai­derman, Campos, 1992, p. 19), vamos encontrar a evidência de que o poeta russo empregava “pala­vras e expressões ‘não-poéticas’” porque tinha “desprezo pela divisão convencional [da poesia] em gêneros ‘superiores’ e ‘inferiores’”.

E assim como Oswald se guiava pelo exemplo de Gregório de Matos (Matos, 1986, p. 16: “mar­cado por uma violência vocabular quase única”, recuperada pelos modernistas de 22), o poeta russo, seguindo o exemplo de Velimir Khlébnikov, buscou no acervo da língua comum, ou “vulgar”, o material de seus poemas.

Afinal, a capacidade de criar neologismos – proveniente da habilidade de gerar estruturas novas a partir de um número finito de regras – é uma herança partilhada por toda a humanidade (Luft, 1985, p. 57).  Se, como foi dito acima, a sagração da palavra é feita através do uso, então os falantes em geral são potenciais neolo­gistas.  E a fala coloquial é uma fonte inesgo­tável para invenções vocabulares.

No caso de Whitman, a questão da fala co­loquial – e mais especificamente a gíria – foi tratada em consonância com a abordagem feita pelos poetas apresentados acima.  Ele inclusive discorreu sobre o assunto em um artigo intitu­lado “Gíria na América” (Whitman, 1907).

Em primeiro lugar, ele afirma que a gíria, “profundamente considerada”, é o “elemento em­brionário desregrado” que está subjacente a toda língua e atrás de toda poesia.  Ele compara a gíria ao palhaço, ao bobo da corte, ao “clown” shakespereano que penetra no recinto majestoso e poderoso da Linguagem.  E, mesmo nas cerimônias mais sérias, ele vai lá fazer uma palhaçada qualquer para arrebentar com o monótono sentido denotativo das palavras.

Mais ainda, o poeta diz que o vocabulário de qualquer língua só conseguiu expandir através da gíria.  Pois sem o poder inventivo dela esta­ríamos ainda engatinhando em termos lingüísti­cos.

Considerando que o poeta das Folhas de Relva foi um freqüentador habitual de todos os tipos de lugares, conhecia todo mundo e não dis­tinguia classes (Spiller at al., 1948, p. 483), com certeza ele não desprezaria aquele tesouro de linguagem que era a gíria.  Em seu artigo ele comenta as piadas que ouviu em suas viagens de carruagens pela cidade.  Os novos significados que as palavras assumiam quando usadas por pes­soas ignorantes da gramática.  Os apelidos dos índios que ele aprendeu quando trabalhava no departamento indígena.  Assim como Oswald, que defendia a “contribuição milionária de todos os erros”, Whitman dizia que a gíria era fundamen­tal tanto para a saúde orgânica da língua quanto para a própria “imaginação” das pessoas e para o “humor”, infiltrando nas “narinas” do “vasto corpo vivo” da Língua o “sopro da vida”.  Isto nos remete ao nosso Mestre Luft (1985), citado no início desta secção, quando ele considera a língua como um “saber” que é “vital e orgânico”, nunca uma “propriedade privada de gramáticos ou lingüístas, professores, doutores” e até mesmo de algum grupo seleto de “escritores”.  A língua é um bem de TODOS.


Cf. Haroldo de Campos, Uma Poética da Radicalidade. In: Oswald de Andrade, Pau-Brasil. São Paulo, Editora Globo, 2. ed., 1990, p.7. Sobre a situação histórica na qual se desenvolveu a prática lingüística renovadora de Oswald de Andrade.

Cf. a obra poética de Oswald de Andrade: Pau-Brasil; Poesias Reunidas; O Primeiro Caderno de Poesia do Aluno de Poesia Oswald de Andrade; e os romances: Memórias Sentimentais de João Miramar; Serafim Ponte Grande. In: Oswald de Andrade, Obras Completas, 2. ed., São Paulo, Editora Globo, 1990.

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  1. [...] coloquial e gíria Caros leitores, há um ótimo texto sobre linguagem coloquial e gíria no Sítio de Poesia. Francamente, estou advogando em causa própria, porque o texto [...]

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