4. HOMENAGEM

4 HOMENAGEM

4.1 Cinema

Passado um século da morte de Walt Whit­man, ao menos um dos meios de comunicação de massa dos Estados Unidos, o cinema, presta home­nagem ao seu maior poeta, que assim eles o cha­mam. Vários filmes têm mostrado trechos de Fo­lhas de Relva, como por exemplo “Sociedade dos Poetas Mortos” e “With Honors“  – este é parti­cularmente meritório no que toca a WW, pois cita vários trechos de seus poemas e mostra a influ­ência de Folhas de Relva sobre um grupo de estu­dantes de Harvard.  O enredo é sobre a mudança de atitude desses estudantes frente a uma insti­tuição extremamente conservadora.  E, no momento crucial, quem dá a palavra é o poema, contribu­indo de forma efetiva, insuflando nos jovens a vontade de mudar suas visões de mundo.  É o que se pode chamar de ação direta da literatura so­bre o indivíduo, retratada numa ficção cinemato­gráfica.

Esta é a função da literatura, alargar as janelas da percepção, apurar a capacidade de discernimento, deliciar os sentidos.  Pois a faísca que vai detonar a combustão das velhas idéias é gerada neles.  Isto é para que serve a literatura.   Afastar as trevas que obstruem a visão perfeita.

4.2 Autobiografia

Achamos importante a inclusão nesta pes­quisa da autobiografia de Whitman, escrita já em avançada idade.  É extremamente curta, daí ser oportuna a idéia.  Ela mostra o cuidado extremo com o qual o poeta registrou sua vida.

Contrariamente à generosidade com que tra­tou de sua vasta obra, tanto poética quanto jor­nalística, WW foi muitíssimo avarento sobre sua vida particular.  Embora estes fatos pouco aju­dem objetivamente no esclarecimento da obra, valem como auxílio no sentido de compreendermos o posicionamento do autor.

Isto é, ele não desejava falar de sua vida particular.  Ele queria criar uma representação de um eu-lírico.  Ele queria mostrar em sua poe­sia um poeta, uma representação.  Como diz Pes­soa, todo poeta é fingidor.  Assim, quanto mais as técnicas de representação se desenvolvem, mais a representação ganha autonomia e se dis­tancia do fato real que a gerou.  Afinal, não criamos uma obra de arte em cima do fato, mas sobre a lembrança de um fato (Pessoa, 86).

Whitman se preocupou em não deixar vestí­gios de sua existência pessoal, sem depoimentos, sem testemunhos que porventura alguém usasse para desvendar seus sentimentos particulares.  Pelo modo como foi escrita a autobiografia, fica claro o cuidado extremo do poeta em tornar pú­blico somente dados objetivos sobre sua vida, como nascimento, local de estudos e datas de publicações.

Esperamos que a inclusão deste documento aqui não cause nenhum problema editorial.  Tra­ta-se apenas de uma homenagem a WW.  Assim foram traduzidas suas notas:

Nota Biográfica de Walt Whitman

31-Maio-1819

Nasce em West Hills, Long Island, Estado de Nova York – segundo filho de Walter e Louisa (nascida Van Velsor) Whitman.  1820, 21, 22 e 23 continuou em West Hills.

1824

Mudou-se para o Brooklyn.  Foi para Escola Pública.  Cuidou de escritório de advocacia.  A seguir de um consultório médico.  Em 1834 entrou para tipografia para apren­der composição.

1838

Ensinando em escolas rurais no município de Suffolk.  Continuou nisso, parte no município de Queens por três anos.  Depois inicia um semanário “The Long Islander” (O Habitante de Long Island) em Hun­tington L.I.

1840

De volta a Nova York trabalhando em tipografia e jornalismo.  Em 1846 e 47 edita o jornal “Eagle” (Águia) no Brooklyn.

1848

Vai a New Orleans como editor na Equipe do jornal “The Crescent”.  Mais tarde viaja para sul e sudoes­te.

1850

Retorna ao norte.  Publica o jor­nal “The Freeman” (O Homem Livre) no Brooklyn.  Depois trabalha cons­truindo casas e as vendendo.

1855

Publica “Leaves of Grass”, primei­ra edição, in-quarto menor, 95 pá­ginas.  Em 1856, 2ª edição, 16º, 384 páginas.  1860, terceira edição 456 páginas, 12, Boston.

1862

Vai aos Campos da Guerra de Seces­são.  Inicia seu auxílio aos feri­dos, nos hospitais e após as bata­lhas, e continua ali constante por três anos.  Em 1865, consegue uma nomeação como Funcionário de Repar­tição.

1867

Publica 4ª edição “Leaves of Grass” incluindo “Drum Taps” (Repi­ques de Tambor).  Em 1871 quinta edição.

1873

Prostrado por paralisia em Washin­gton.  Parte para praia do Atlânti­co por ordem do médico.  Enfraquece bastante em Filadélfia e constitui residência em Camden, New Jersey; onde ele permaneceu por mais de quinze anos até esta data;

1876

Sexta – ou centésima – edição de L. of G. com um outro Volume, “Two Rivulets” (Dois Córregos) de prosa e poesia alternativamente.  Em 1881, sétima edição de L. of G. publicada por Osgood and Co. Bos­ton.

1882

Oitava edição de “Leaves of Grass” publicada por David Mckay, Filadél­fia.  Também “Specimen Days” (“Dias Exemplares”), um volume de prosa e autobiografia.

1888

O Sr. Whitman está agora em seu septuagésimo ano.  Ele está quase inteiramente incapacitado fisica­mente por uma paralisia por causa de seus trabalhos no hospital em 63 e 64.  Mas está agora imprimindo ouvimos dizer um pequeno volume de prosa e verso adicionais chamado “November Boughs” (“Ramos de Novem­bro”).  Ele reside em Mickle Street, Camden, New Jersey.

Notadamente, a autobiografia é pródiga em informações objetivas.  É, praticamente, apenas uma lista dos principais eventos da vida do poe­ta.  Assim como em seus cadernos de anotação, aqui os fatos da vida rotineira não aparecem.  Ele eliminou quase todo resquício de sua vida pessoal.  Ele queria ser visto como o personagem de sua poesia.  Consequentemente, o que sobra do homem cotidiano e físico, com preocupações como comer, dormir e trabalhar, é ínfimo.

4.3 Ezra Pound

Em 1909, Ezra Pound escreveu um ensaio no qual elevou Whitman à condição de poeta fundador da nação americana e da língua americana.  À semelhança de Dante, Whitman “escreveu em ‘lín­gua vulgar’, em um novo metro.” Ele foi o “pri­meiro grande homem a escrever na linguagem de seu povo.”  Isto é, ele captou a essência do espírito do seu povo e a expressou em poesia.

Na verdade, Pound foi mais além.  Ele com­preendeu que seu antecessor era mais do que um receptor de ondas mentais, ele “era” o próprio país: “Ele [Walt Whitman] é a América.” E mes­mo achando que a obra de Whitman tinha muita “crueza” e exalava um “cheiro horrível”, ele não modificou seu ponto de vista.  Esta era a reali­dade.  E Whitman não a mascarava, ele se solida­rizava a ela.  Ele sentia com ela, não por ela. E mesmo morando tão longe da terra natal; se considerando um “cosmopolita”; descendendo de uma “família” literária de primeira grandeza, com nomes como Dante, Shakespeare, Teócrito, Villon e “outros” que ele achava “difícil esta­belecer”, Pound ainda se indagava de que modo incluir em sua ascendência alguém inteiramente livre do “ideal humanista do homem completo” e livre do “idealismo grego”.

Mas mesmo com toda essa distância, ou até por causa dela, ele enxergou em Whitman aquele que “profetizou” seu próprio (de Pound) apareci­mento.  Whitman tinha sido o começo.  Pound se­ria o “fim”.  A obra “acabada”.  E ele confessou ter usado os ritmos de Whitman para expressar “certas coisas relacionadas com a consciência cósmica”.  E também revelou: “Mentalmente eu sou um Walt Whitman que aprendeu a usar colari­nho e camisa” (de peito duro para traje a rigor).  Para logo emendar: “Embora às vezes hostil a ambos.” E em seguida assumir definiti­vamente a filiação “espiritual” a Whitman.

Embora desejasse esconder este fato, por­que seria muito mais charmoso falar de sua “fa­mília” literária, ele preferiu ser franco e proclamar que a mensagem de Whitman era a sua e que cuidaria para que todos os homens soubessem disso.  Porque ele [Whitman]

é nojento. Ele é uma pílula excessivamente nauseante, mas ele cumpre sua missão.

Inteiramente livre do ideal re­nascentista humanista do homem com­pleto ou do idealismo grego, ele está contente de ser o que ele é, e ele é seu tempo e seu povo.  Ele é um gênio porque tem visão do que ele é e de sua função.  Ele sabe que ele é um começo e não uma obra classicamente acabada.  [...] Eu posso somente reconhecê-lo como um antepassado de quem eu devo me or­gulhar.

E isso ele continua a fazer vinte e cinco anos depois, em seu livro ABC da Literatura (Pound, 1990).  Embora declare não se lembrar onde se encontra a melhor parte da obra de seu compatriota, afirma que seu “pai espiritual” foi o único que percebeu que o que lhe ensinaram em sua época não era suficiente em termos lite­rários.  E que os contemporâneos de Whitman se perderam no estilo da época.

Mas Pound diz ao leitor que, se este fizer uma busca minuciosa, vai conseguir encontrar a essência de Whitman onde o poeta soube expressá-la melhor.  Para isto Whitman é mantido em seu paideuma dos poetas que contribuíram para a evolução do verso inglês. Quanto ao recado ao leitor, a resposta vai em forma de recriação.  Os três livros apresentados no primeiro capítulo é nossa visão do que seja a “essência” da poesia whitmaniana.  Embora tenhamos consciência de que vários poemas individuais, como “Canção da Es­trada Aberta”, “Canção da Sequóia”, “Passagem Para Índia”, “Travessia da Barca do Brooklyn”, possam ser citados como fragmentos dessa mesma fragrância.


Cf. Irineu Monteiro, Walt Whitman, Profeta da Liberdade, São Paulo, Martin Claret Editores Lmtd, 1984, p.16 e segts., para ver a cópia da autobiografia manuscrita de WW. A versão aqui apresentada foi feita pelo autor da dissertação.

Cf. Ezra Pound, Walt Whitman. In: WHITMAN. A collection of critical essays. Englewood Cliffs, N. J., Prentice-Hall, Inc., 1962, p. 8.

Cf. D. H. Lawrence, Whitman. In: WHITMAN, op. cit.

Cf. Ezra Pound, ABC da Literatura, São Paulo, Editora Cultrix, 9º. ed., p.138, sobre o “paideuma” do verso inglês, isto é, um levantamento dos poetas cujas obras representaram uma melhoria da expressão poética.

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