Consideraremos para nosso estudo a premissa de que a tradução de um texto literário implica necessariamente a perda de informação estética durante a passagem de uma língua à outra. Isto acontece porque a tradução não está interessada na estética da obra. Ela privilegia somente o conteúdo semântico. É a tradução literal. A tradução de significados. E não de signos, da materialidade sonora e gráfica, daquela informação (a estética) que confere beleza ao verso (tratando-se de poesia). Assim, os elementos que conferem beleza a uma obra de arte se perdem no espaço entre as línguas.
Por exemplo, na tragédia Júlio César, de Shakespeare, no ato 3, cena 2, verso 105, o personagem Marco Antônio expressa sua emoção ao referir que o poder de julgar está nas mãos de “brutish beasts”. Estes termos receberam em português esta versão: “brutos animais”, feita por Carlos Alberto Nunes. O primeiro detalhe é que em Inglês existe a palavra “animal”, mais comum do que “beast” (que é usada em estórias e fábulas). O dicionário Inglês/Português da Barsa, p. 49, indica que “beast” significa “bêsta (também fig.), fera; animal doméstico (esp. gado); (fig.) rude, bruto [...]“ O segundo detalhe é que a tradução literal de Carlos A. Nunes não percebeu isto, pois poderia ter “achado” a solução: brutas bestas. Ou no masculino, brutos bichos. Estas duas versões recuperariam a materialidade sonora e gráfica da expressão, além do conteúdo semântico, contemplando aquela parte do texto que se realiza sobre si mesmo.
Esta é apenas uma amostra do que uma recriação literária pode fazer para produzir na segunda língua um objeto artístico fruível e que, ao mesmo tempo, tenha relação com a forma do original. Por isso decidimos chamar nosso trabalho de recriação literária. É um método que apreende o objeto artístico de forma total.
E este foi o rumo tomado pelo nosso trabalho recriativo. Fundado sobre o seguinte pensamento: a recriação em português de Leaves of Grass deveria ombrear com o original em inglês. No sentido de ser uma obra tão independente quanto a que lhe deu vida. Uma obra em si. Folhas de Relva não deveria ser espelho, explicação ou tradução de conteúdo. Ela deve ser uma obra de arte também original. Este é o objetivo da recriação: fazer com que uma obra seja original numa outra língua tanto quanto ela é em sua língua-mãe.
Para isso esquadrinhamos o repertório da nossa linguagem e cultura até achar as expressões equivalentes para recodificar os elementos da estética que desejamos recriar. Como exemplo, vale a pena elucidar a tradução do próprio título da obra, Leaves of Grass, vertido uma vez para Folhas de Relva (Campos, 1983) e outra para Folhas de Erva (Monteiro, 1984). Como nesta pesquisa pretendemos uma visão renovadora, espírito que norteia o poema de Whitman, procuramos compor em português uma tradução condizente com a diretidade do título original, Leaves of Grass.
Examinando os termos relacionados às plantas rasteiras, que envolvem capim, pasto, cana, bambu, milho, trigo, arroz, monocotiledôneas em geral, umas 6.000 espécies, a palavra mais abrangente é gramínea. Que significa “em forma de grama” ou “gramiforme”. Como não estamos procurando algo “em forma de grama”, mas a própria “grama”, por que não verter “grass” por grama? Por que não seguir a simplicidade do autor? Com este intuito optamos por dar à obra em português o título de Folhas de Grama. (Obs.: Nesta revisão do texto da dissertação, atualizamos o título da obra para Folhas de Relva, que é o título já consagrado em nossa língua.)
Porque a obra recriada não deve ter nem mais nem menos elementos do que a original. Não pode haver acréscimos. E nem deve haver cortes. E nem explicações, nem notas de rodapé, nem rodeios, nem outro artifício qualquer que destrua a estrutura, que modifique a arquitetura da obra. (Também aqui mudamos de idéia, pois há muitos termos difíceis, desconhecidos ou emprestados de outras línguas na obra de Whitman, os quais precisam de notas. Assim, na revisão das traduções do Mestrado, acrescentamos notas onde achamos que isso fosse conveniente. Não publicamos essas traduções aqui porque pretendemos publicar esses poemas em papel.) Tanto em termos de ritmo, de métrica, de rimas, de estrofação, quanto em termos semânticos. Mesmo levando em conta que um texto pode até ser melhorado na passagem de uma língua à outra (Fernandes, 1989). Certamente, não é este o caso aqui. Nosso texto de partida é suficientemente criativo. Ele não precisa ser melhorado, ele precisa ser respeitado.
Por exemplo, Geir Campos (s. d.) , nas suas Folhas das Folhas de Relva, redistribuiu os versos de Whitman em versos menores, explicando, no prefácio, que se tratava de um livro destinado a um público “não-erudito”. Por isso não iria apresentar uma obra bem acabada. Esta proposta se concretiza na tradução do poema “Eu Canto o Corpo Elétrico”, do qual ele eliminou a última parte. Exatamente a passagem na qual o poeta responde à pergunta com a qual abriu o poema: “E se o corpo não fosse a alma, o que é a alma?”
O tradutor deve concentrar-se no fato de que o texto precisa ser enfrentado corajosamente em tudo. Dos maiores vôos aos ínfimos detalhes. Das explosões imagéticas às mais diminutas correlações sonoras e fonemáticas. Ele precisa ser encarado na sua totalidade. Eu digo totalidade de partes. Pois, certamente, as partes estão arranjadas de tal modo que a harmonia do conjunto será vista como um movimento completo. Qualquer falha que houver, por menor que seja, será um empecilho ao gozo harmônico da obra. Como o próprio Whitman afirmava que tudo no universo é “um desfile com movimentos medidos e perfeitos”, é de se supor que sua obra também o seja. E nós brasileiros entendemos bastante de desfiles, cortejos, cordões, procissões, paradas, comícios, exposições e outros movimentos em blocos. E sabemos que o quesito harmonia conta muito. Principalmente no movimento em bloco que é feito pelas multidões nas grandes cidades.
Quando observamos do alto de um edifício o equilíbrio dinâmico de uma multidão em movimento nos centros urbanos, ficamos maravilhados com aquele formigueiro em que todos têm destinos opostos mas parecem estar andando numa direção determinada e conhecida, enfim, numa direção só. Esta é a imagem perfeita da obra whitmaniana. Cada parte parece ir numa direção diferente da anterior e da seguinte, contudo, todas elas fluem para o mesmo ponto, que é o grande centro, o ser humano. E este é o ponto de encontro, o ponto de equilíbrio. Assim como todos os elementos numa orquestra, apesar de seguirem cada um sua partitura, não podem perder de vista o regente. E em Folhas de Relva o regente é o ser humano em sua plenitude.
Cf. William Shakespeare, The Complete Works, Oxford, Clarendon Press, 1992, p.615.
Cf. William Shakespeare, Júlio César, Rio de Janeiro, Ed. Tecnoprint S.A., 1983, trad. De Carlos Alberto Nunes.
Cf. Haroldo de Campos, op. cit., p. 16.
Haroldo de Campos, Metalinguagem, São Paulo, Editora Cultrix, 1976, pp.23-4: “Realmente, o problema da intraduzibilidade [...] quando se consideram obras de arte em prosa, [...] por exemplo, o Joyce de Ulisses e Finnegans Wake, [...] o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Tais obras, tanto quanto a poesia (e mais do que muita poesia), postulariam a impossibilidade da tradução [...]“.
Haroldo de Campos, op. cit., p.24: “Então, para nós, tradução de textos criativos será sempre recriação, ou criação paralela [...]. Numa tradução dessa natureza, não se traduz apenas o significado, traduz-se o próprio signo, ou seja, sua fisicalidade, sua materialidade mesma [...]. O significado, o parâmetro semântico, será apenas e tão-somente a baliza demarcatória do lugar da empresa recriadora. Está-se pois no avesso da chamada tradução literal.”
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