02. De Repente, Cansei de Ser Escroto
DE REPENTE, CANSEI DE SER ESCROTO
De repente,
Cansei de ser escroto,
amarfanhado e roto,
me alimentando no esgoto
da miséria do ignoto.
-
Viver a não existência,
é o nada que ao nada vai,
é não ver mãe nem ver pai,
não ter sabor nem ciência.
-
É ter numa mão o suicídio
e na outra o assassinato
é um cego no precipício
é ser morto ainda inato.
-
Quem não pára um momento
pra olhar para si mesmo
e ver que é mesmo de dentro
que sai tateando a esmo,
-
jamais saberá a calma
de entender que é em si
que está a chave mestra
que abre a porta da alma.
-
Toda alma é tranqüila
não perde tempo com alarde
apenas cochila na tarde
observando o sol que brilha
-
alumiando as sombras
que vagam pelo porão
da mente que ao rés do chão
caminha, tropeça e tomba.
-
Até que um dia a mente cansa
de não se saber na paz
e aos poucos se amansa
pensando aquilo que faz.
-
E ela vê que é ela mesmo
quem cria todos fantasmas:
ódios, rancores, miasmas,
temores, ranço, degredo.
-
E só dessa consciência
de se saber criadora
dos males que vem a si
pode ela mudar a essência
-
do lugar em que habita
aprendendo a ver as cenas
aprendendo a ler a fita
numa mirada mais amena.
-
Meditando esse ponto,
vim ao encontro de mim,
e fui regando esse broto
princípio do meu jardim,
que agora quero plantar.
DE REPENTE FOI ASSIM
QUE CANSEI DE SER ESCROTO.
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