01. Canto do Amor Em Si

Violet Violet
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Canto do Amor Em Si

O que quer que você faça,

onde for o seu destino,

saiba que o Amor perpassa

todo espaço o tempo inteiro.

Não importa sua raça,

religião ou dinheiro,

o Amor a tudo ultrapassa,

desde o último até o primeiro.

Quer tenha ou não tenha casa,

seja alto, gordo ou feio,

o Amor não olha pra casca,

muito menos pro recheio!

Ele nem sabe o que é casta,

realidade ou devaneio,

se algo lhe falta ou basta,

se está na borda ou no meio;

se você bebe cachaça,

uísque, conhaque ou vinho,

se expele ou cheira fumaça,

se sua flor tem espinho!

O Amor não veste casaca,

nem faz pregas em tecido,

não anda de carro ou maca,

nem precisa ser sentido.

O Amor é, está, ou passa,

é um som que arranha o ouvido,

uma lesma na vidraça,

bilhete mal redigido.

Ele nunca apressa a marcha,

já mora no infinito,

espera o fim da desgraça,

da dor, da mágoa ou conflito.

Aguarda nossa chegada,

cada um no próprio ritmo,

com paciência redobrada,

e nos oferece abrigo.

Só temos que achar a faixa,

sintonizar o aparelho,

reconhecer as pegadas,

ou atravessar o espelho.

Captar o Amor que vaza

de olhos jovens e velhos,

que seca língua e palavras

e amolece os joelhos.

Que gera um mar de lágrimas,

que lava todo tormento,

que derrete um Himalaia

de rancor e sofrimento.

Quem sabe um dia essa graça,

semente do Amor divino,

que germina em qualquer praça

num sorriso de menino,

nosso coração refaça,

restitua o que sentimos,

retire toda ameaça

com a qual nós nos punimos,

nos faça depor as armas,

nos deixar ser invadidos,

nos faça abrir as entradas

dos nossos esconderijos,

cruzar o mar de jangada,

farejar ondas e riscos,

correr por qualquer estrada,

descobrir só por indícios.

E dar nossa face a tapa,

e a outra se preciso,

ver o preço que se paga

pra não haver inimigos.

Se entregar, soltar amarras,

errar as rotas e os ritos,

riscar e rasgar os mapas,

rumar ao desconhecido.

Ver o que há por trás das máscaras,

chegar mais perto do espírito,

alcançar a própria alma,

de corpo e crença despido.

Estar só e não ter nada,

nem memória do vivido,

sem ilusões, esperança,

nem paraíso perdido.

Uma ferida inflamada,

esse sangue apodrecido,

essa fogueira avivada

de desespero incontido,

deixe que esse fogo arda,

esse ferro ser fundido,

que escorra toda a lava

do sentimento escondido,

essa torrente que abrasa

um lábio emudecido,

cinza do que já foi brasa,

um passado consumido,

voltar ao estado de larva,

ao que não está crescido,

não suportar mais a carga

daquilo que é conhecido,

deixar que tudo renasça,

ver o que é para ser visto,

ser borrado na borrasca,

germe emprestado do lixo,

e tal floresta queimada

que recupera seu viço,

o broto que a luz abraça

é o amor em si consigo,

um pássaro que esvoaça

depois de deixar o nido*,

um anjo que bate asas

no topo dos edifícios,

ou o mel da doçura farta,

de boca em boca vertido,

que seu corpo seja a taça

donde seja absorvido,

como pólen que propaga

girassóis, cravos e lírios,

como o sol na madrugada

afugentando o ar frio,

assim o Amor se espalha,

ondula as águas do rio,

é folhagem que farfalha,

das aves é o assobio,

é pergunta que se cala,

é um estar a sós consigo,

uma voz que nada fala,

uma ausência de ruído,

soldado que não batalha,

ganhador sem ter vencido,

é uma rede sem malha,

mineral não extraído.

O fundo da sua alma

é seu lugar preferido,

ele habita a sua calma

e sabe sem ser sabido.

Seu coração é a casa

do Amor, passagem, veículo,

uma represa que desaba,

jorrando todo o seu líquido.

Nada no mundo o abala,

é doce, leve, tranqüilo,

o Amor é a canção que embala

nosso sonho de estar vivo.

* Nido: ninho, em espanhol.

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