05. O Cio Em Si


Leda and the Swan by a pupil after a lost pain...
Image via Wikipedia

O CIO EM SI

O falar é o vazio

de quem está fora de si

quem fala não pode ouvir

silêncio que vem do cio

cio se dá sem rumor

sem nome, sem identidade

sem tempo, dor ou saudade

sem receio e sem temor

cio é lágrima que lava

as mágoas do coração

é lava que derramava

pelos lábios do vulcão

é comporta que destrava

suor escorrendo das mãos

o que saía ou entrava

o aperreio do pulmão

é raio na tempestade

queimando os picos dos montes

chuva no meio da tarde

maré subindo nas pontes

em tudo se sente o cio

no tom, na tez ou no tato,

é um elétrico contato

um telefone sem fio

olhar aceso é pavio

rastilho queimando fácil

faísca que corta o frio

arrepio que sobe rápido

gatilho, cão, espoleta

é um prenúncio de gozo

prefácio de obra completa

anúncio não enganoso

o toque é descarga elétrica

dedo é fio desencapado

o beijo é senha de festa

um banquete de mil garfos

o cio é mesa repleta

fartura que propicia

uma saciedade certa

espasmo que inicia

entrega que se completa

energia que imantaria

os quatro pontos da terra

simbiose que recria

uma viagem que começa

um vôo que alivia

o medo de quem tropeça

um gozo que valeria

quarenta vidas de espera

fusão da carne que cria

portal além da matéria

unidade como via

viver como veia aberta

canal que desaguaria

num mar de vida desperta

oceano que riria

um rio que marearia

água que umedece a terra

onda, espuma, maresia

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