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O CIO EM SI
—
O falar é o vazio
de quem está fora de si
quem fala não pode ouvir
silêncio que vem do cio
—
cio se dá sem rumor
sem nome, sem identidade
sem tempo, dor ou saudade
sem receio e sem temor
—
cio é lágrima que lava
as mágoas do coração
é lava que derramava
pelos lábios do vulcão
—
é comporta que destrava
suor escorrendo das mãos
o que saía ou entrava
o aperreio do pulmão
—
é raio na tempestade
queimando os picos dos montes
chuva no meio da tarde
maré subindo nas pontes
—
em tudo se sente o cio
no tom, na tez ou no tato,
é um elétrico contato
um telefone sem fio
—
olhar aceso é pavio
rastilho queimando fácil
faísca que corta o frio
arrepio que sobe rápido
—
gatilho, cão, espoleta
é um prenúncio de gozo
prefácio de obra completa
anúncio não enganoso
—
o toque é descarga elétrica
dedo é fio desencapado
o beijo é senha de festa
um banquete de mil garfos
—
o cio é mesa repleta
fartura que propicia
uma saciedade certa
espasmo que inicia
entrega que se completa
energia que imantaria
os quatro pontos da terra
simbiose que recria
uma viagem que começa
um vôo que alivia
o medo de quem tropeça
um gozo que valeria
quarenta vidas de espera
fusão da carne que cria
portal além da matéria
unidade como via
viver como veia aberta
canal que desaguaria
num mar de vida desperta
oceano que riria
um rio que marearia
água que umedece a terra
onda, espuma, maresia
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