07. Furnas e Fendas

- Image by Tiago Celestino via Flickr
Furnas e Fendas
—
Meu amigo, meu irmão,
quanto tempo em sucessivas vidas
passaste em guerras.
Quantas épocas vividas
sob o domínio das feras.
E a saudade das festas
roendo na testa.
Quantas idas e idas
nunca bem vindas!
Quanto sangue espalhado
quanto chão molhado
e forrado de cadáveres.
Quanto suor e sofrimento
doendo a cada momento.
Quanto calor horrendo
e nunca o sabor do vento.
Quanto detrimento
invertimento e tormento.
Quanta saudade do lar,
quanta vida a se acabar
em infindas batalhas,
conquistas que evaporam no ar.
Quantos túmulos cavados
na terra ou no mar,
quantas almas a expiar
crimes hediondos.
Mas o que há de tão
valioso em jorrar
o sangue humano?
Construir reinos
infecundos na aridez
de subterrâneos?
Castelos pra guardar
a sordidez das traições
e os incessantes abandonos.
De que vale ser viril
para servir o que é vil?
É só um ser servil
sub-servindo ao ardil
da razão de quem
conduziu mal o bem.
Meu caro irmão,
demite-te desse exército,
abandone esse ideal
de ser leal ao rei irreal
que fingindo servir ao Bem
só se realiza no Mal.
Vem sentir o aroma
das furnas e fendas
das montanhas,
vem sentir o vento da lida
do lar que é tua guarida,
vem partilhar da comida,
do cheiro de casa limpa.
Vem ficar junto daquela
que já esperou tanto tempo
num leito de sentimentos.
Usa tuas mãos pra servir
àquela que é o devir
do que há em teu coração.
Vê o teu filho nascer
e repouse ao calor do ninho
que compartes com tua esposa.
Sirva a ela, mãe, mulher,
aquela que aqui te quer,
ao lado da vida dela.
Descansa, grande guerreiro,
aposenta tuas armas,
apenas seja o guarda
da sagrada Deusa Fêmea,
para que ela apareça
sem perigo em tua presença.
Deixa que ela desvista
também a sua couraça,
e que se deixe ser vista
sem perigo ou ameaça
que a faça se esconder.
Seja o protetor dessa Raça
de Deidades Supremas,
a única que vale a pena
servir e defender.
Mas se tu velho guerreiro
não sabes do que aqui falo,
pois passaste muitas vidas
sem conhecer um regalo
do que é viver sem guerra,
é melhor descer à terra,
deixar baixar a poeira,
sentar na tua soleira
e ouvir o canto da serra.
Ouve o som dos passarinhos,
sente o cheiro da folhagem,
que um dia a morna aragem
vai mudar os ventos teus.
Vais conhecer o cuidado,
vais lembrar de que um dia
a mão doce de uma mãe
te recebeu neste mundo.
Mas pra lembrar disso tudo,
vais ter que deixar falar
esse teu coração mudo.
Procura dentro do peito
a voz que não sabe a guerra,
a voz tranqüila que encerra
teu verdadeiro tesouro.
Essa voz que em ti fala
é teu espírito supremo,
é o teu ser sagrado,
aquele que traz a paz.
Mas se tu, meu caro irmão,
não ouvires esta voz,
não encontrares tua alma,
vais precisar muita calma
pra deixar ela encarnar.
Ela já sabe o caminho,
só está um pouco triste
sofrendo com tanta dor
de tantas vidas perdidas
na vingança e no rancor.
Relaxa teu coração
e deixa ela contatar.
Ela não vai te atacar,
ela é o teu repouso.
Ela vai curar a ferida
de tantas mortes seguidas
passadas no fio da espada.
Tua alma quer outra estrada,
um caminho mais suave,
a ternura como chave
do recanto da alegria.
Aceita ser inundado
pela leveza da alma,
os novos olhos, um mundo
que pode logo começar,
basta ter calma e aguardar,
não desistir da jornada,
que os Anjos vão vigiar
pra que tua alma descenda
para dentro de teu corpo,
como uma esposa saudosa
acolhe o seu caro esposo,
ou a mãe que acolhe o filho,
num abraço renovado,
como uma Fêmea recebe
dentro de seu próprio corpo
o corpo de seu Amado.
Deixa a tua alma entrar,
e verás um mundo novo
a cada instante que há,
a recompensa é o Céu.
Para isso é que vivemos,
o resto é loa ao léu.
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