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Carta ao Meu Amor
Meu amor, quero falar a você de algo que você não tem ainda condições de falar abertamente.
Então vamos falar só nós dois, falar a sós.
Ninguém estará nos ouvindo.
Assim posso expor tudo que sinto sobre este assunto, que só pode ser o amor.
Afinal, existe algum outro assunto mais importante que esse?
Pois bem, meu amor, eu sei que você amou muito uma pessoa.
Eu sei que você acabou se cansando disso.
Porque você insistiu em amar alguém que não conseguia ver seu amor.
Você se entregou a alguém que não conhecia o amor.
Alguém que não tinha registro do que é ser amado.
Eu entendo você, eu também passei por isso.
Eu também amei muito uma pessoa, anos a fio, e essa pessoa não podia ver que na frente dela havia alguém totalmente apaixonado.
Essa pessoa que amei correu mundo atrás do amor de sua vida.
E eu estava ali, do lado, dizendo silenciosamente a ela que eu a amava e que poderia amá-la mais do que qualquer um que ela encontrasse neste planeta.
Mas ela não me viu, meu amor.
Assim como a pessoa que você amou não viu o seu amor.
Agora entendo a dor que é amar e ver que o ser amado é incapaz de perceber a presença do amor.
Não que o ser amado será incapaz de amar para sempre.
Pois todos nós temos o amor dentro de nós.
A questão é saber se a pessoa consegue perceber em si a presença do amor.
Enquanto a pessoa não tiver sentido isso em seu coração, vai ser impossível aceitar o amor que vem do outro.
Nesse caso, o ser amado, inconsciente da presença do amor, e, muito além disso, não sabendo que ele é feito de amor e que sua única realidade é amor, não conseguirá entender que o amor que ele vê fora de si é somente um reflexo do amor que ele tem dentro de si.
Como o ser amado não re-conhece dentro de si o que está fora, o ser amado não se acha merecedor do amor que vem do outro.
Por isso ele rejeita o amor que vem de alguém que o ama.
Por isso você amou alguém que não via em si, e muito menos conseguia admitir, que o amor que você ofertava a ele, meu amor, era a contraparte do amor que ele, como todo e qualquer ser humano, traz dentro de si.
E tem mais, meu amor.
Quando o seu ser amado se encontra numa situação assim, esse ser está literalmente cego.
E, nessa cegueira, meu amor, esse ser se acha indigno de receber um amor tão puro, límpido e divino como o seu.
Porque ele se acha sujo, devedor, desumano, rejeitado e abandonado.
E, ao pensar isso, meu amor, ele se afasta de quem o ama.
Como é que esse ser, temporariamente cego, que se acha tudo isso, que sente todo esse repúdio por si mesmo, vai aceitar que é amado e aceito?
De dentro de sua razão parcial – que é sua ilusão-, que é a de alguém que se rejeita total e irrestritamente, como é que esse ser, que se sente mais vil que o mais vil criminoso, mais fedido e mais marginal que o mais marginal dos mendigos, desses que de tão marginais habitam as margens dos riachos poluídos das cidades, como é que esse ser, olhando por esse lado do prisma, e sem conseguir olhar por outro ângulo que não seja esse, vai aceitar algo diferente disso?
Diga, meu amor, como é que esse ser, que vive e se nutre de escuridão e solidão, que não come o pão nosso de cada dia, vai poder admitir, seja lá por um segundo, que ele também é digno de ser amado?
Como é que alguém que se acha tão afastado de Deus, que se acha esquecido por Deus, que odeia Deus com a força maior de seu íntimo, por achar que foi abandonado por Ele, como é que esse ser vai poder ver que tudo isso não passa de uma grade imaginária numa janela que não existe?
Diga, meu amor, você que amou e ama alguém assim, um alguém que tem Deus por pior inimigo, que não sabe que o único inimigo de si está dentro de si mesmo, que é ele mesmo, que seu maior inimigo é sua própria cegueira, diga, meu amor, como é que alguém assim vai ver e aceitar o seu amor?
E agora eu pergunto a você, meu amor: se você ama um ser assim, que realmente não sabe o que faz e que realmente não sabe o que está perdendo, você vai ter paciência para esperar que esse seu ser amado um dia veja a luz?
Que esse seu ser amado consiga, nem que seja por um milésimo de segundo, aceitar que o amor que ele vê fora dele mesmo esteja dentro dele mesmo?
Que o amor que ele vê em outras pessoas amorosas é só e somente um reflexo do que ele sente e não vê em si mesmo?
Você vai esperar que esse seu ser amado um dia perceba que o que ele vê nos outros está em si, e que já que ele aceita que o mal que ele vê nos outros está em si, por que não o bem?
Porque ele vive nessa aparente certeza, ele vive nessa ilusão que o mal que está fora está dentro, mas o bem não está!!
Como explicar ao seu ser amado, meu amor, que isso é usar dois pesos e duas medidas consigo mesmo?
É como você se olhar literalmente no espelho do seu banheiro e achar que o reflexo do lado direito de seu rosto está correto e achar que o reflexo do lado esquerdo é incorreto.
Como explicar, meu amor, que isso é uma incoerência cósmica?
Como mostrar a esse ser, que tem olhos mas não vê, que isso é uma contradição total e inharmonizável?
Como dizer a esse ser, meu amor, que isso é uma divisão total de sua mente, que isso beira a esquizofrenia, que isso é uma inconsciência total de sua realidade única e inviolável e indestrutível que é o amor?
E como fazer isso sem agredir mais ainda esse ser que de tão agredido acha que a única realidade é a agressão?
Esse ser que vive com medo e do medo.
Esse ser que foge e se oculta do mundo e das pessoas, que vive em completo isolamento, que não tem parâmetros do que seja uma pessoa que tem amor em seu coração?
Diga, meu amor, você será capaz de aceitar que esse ser está temporariamente incapaz de sentir o amor que tem no peito, que está ilusoriamente desconectado dessa energia divina, que é a manifestação de Deus em pessoa criando e expandindo o universo que é o corpo Dele mesmo, e assim deixar que ele aos poucos vá lavando a lama de seus olhos e que comece a ver que o amor que ele vê em você, meu amor, também está nele, sem puni-lo por isso?
Você é capaz, meu amor, de perdoar alguém assim?
Ou você acha, meu amor, que ele, por ser cego, deve ser punido por isso?
Que por viver numa vingança cega contra o mundo e contra você, meu amor, e por achar que o mundo o agrediu, continua agredindo o mundo, você acredita, meu amor, que esse ser perdido de si mesmo, tateando no escuro sem encontrar sua própria alma, pensando que é um corpo sem espírito, pensando que foi roubado de seu ser e que está desligado do todo, do amor divino, que se sente a própria encarnação do mal, meu amor, me diga, esse ser merece punição?
Como punir alguém que não sabe o que faz?
Eu entendo você, meu amor.
Eu entendo sua dúvida, sua hesitação.
Entendo seu receio. Entendo seu cansaço.
Você se cansou, meu amor, de insistir com alguém que está cego e nem sabe disso.
Por isso você se afastou de quem você ama, meu amor.
Você se sentiu incompetente e, principalmente, impotente para mostrar a quem você ama o seu amor.
E você deixou o seu amor, meu amor.
Mas será que você o deixou sem rancor?
Ou você acha que ele é culpado de sua inconsciência?
Que tratamento você acha que ele merece, meu amor?
Pois, afinal, além de cego, seu amor é burro, meu amor.
Ele parece persistir em não ver o óbvio, que o amor está bem debaixo do nariz dele, literalmente, um palmo abaixo, no coração.
Que dúvida, não é, meu amor?
E você, também já parou para pensar que esse ser perdido e cego também é parte de você?
Se o mal que vemos é reflexo do nosso, como a cegueira que vemos é reflexo da nossa, como o nosso amado cego já mostrou, e no qual ele acredita, e você, por seu lado, meu amor, já entendeu que o amor que está lá fora é reflexo do amor que está em seu coração, por que não juntarmos as duas coisas, meu amor?
Se tudo que vemos é reflexo do que trazemos dentro de nós, então o mal e o bem que vemos fora de nós necessariamente estão em nós, de alguma forma.
Então, meu amor, o amor que você vê, e que já reconhece dentro de você, está em você, assim como o mal que você vê no seu amado cego também está em você.
A recíproca tem de ser verdadeira, se não, não vale, meu amor.
Assim como seu amado não consegue ver o amor em si, você não consegue ver o mal em si.
E se você acha, meu amor, que seu amado merece ser punido pela cegueira dele frente ao amor, eu pergunto a você, meu amor: você merece receber punição por sua cegueira frente ao mal?
Sua resposta tem que ser a mesma para ambos os casos, meu amor.
Não podemos usar aqui dois pesos e duas medidas, senão estaríamos afirmando com nossa ação que também nós não sabemos o que fazemos.
Se pelo menos pleiteamos saber o que estamos fazendo, meu amor, temos que ao menos ser coerentes com isso.
Se a resposta é sim, ambos merecem ser punidos pela cegueira.
Se a resposta for não, ambos merecem ser perdoados por isso.
Da minha parte, meu amor, entendo que ambos merecem o perdão divino, já que ambos estão inconscientes do que fazem.
Seria muita prepotência da nossa parte, não é, meu amor, a gente achar que um cego merece ser punido por sua cegueira frente ao amor, e alguém que não vê o mal não ser punido por sua cegueira frente ao mal.
Afinal de contas, não é o mal agindo sorrateiramente para punir quem não vê o amor, e em nome do amor?
Como é, então, meu amor, que em nome do amor, vamos praticar o mal?
Seria uma contradição, não é?
Por que esse ser amado seria culpado de não ver (o amor)?
E nós não seríamos culpados de puni-lo por isso?
Só porque nós vemos o amor?
Ou somos todos culpados, a metade das pessoas por não ver o amor, e a outra metade por não ver o mal em si, ou somos todos inocentes.
De fato, estamos todos na cegueira.
O caminho que se abre à nossa frente aponta para uma visão mais ampla disso.
Quem só vê o mal vai precisar a aprender a reconhecer o bem em si.
E quem só vê o bem vai precisar aprender a ver o mal em si mesmo.
Até porque nós vivemos no mundo da dualidade. Neste plano terrestre, sempre haverá o jogo dos contrários: claro x escuro, alto x baixo, justo x injusto, rico x pobre.
É só admitindo e assumindo cada um suas outras partes é que estaremos nos tornando seres íntegros, completos, ou seja, voltando a ser o que, na realidade, nunca deixamos de ser: apenas estávamos na ilusão de que não mais éramos o que um dia fomos.
Assim como o bem não está apenas nos outros, o mal também não.
E quando tivermos as duas partes integradas em nós, veremos o amor, que é a energia do todo, a energia que cria tudo e que tudo perpassa, fluir através de nós, de forma una, pois o fundo de tudo é a unidade. Nós é que não vemos assim por causa de nossa visão parcial das coisas, mas não é porque não vemos a unidade que ela não exista. Não é porque olhamos da dualidade das nossas mentes que a unidade deixe de existir. Nós é que precisamos entender isso e aprender a ver a unidade, colocando o que há de mal em nós a serviço do bem, fazendo a alquimia de ruim em bom, pois toda escuridão que recebe luz deixa de ser escuridão, por ter sido iluminada, ou como esterco que vira adubo para nutrir novas vidas.
Ora, meu amor, parte de mim, você acha ainda que existe alguém culpado de alguma coisa que precise de punição?
Ou não será isso tudo uma questão de consciência ou inconsciência do que se passa em si mesmo e da ignorância da natureza real de nós mesmos, que é o amor?
Vamos com calma, meu amor, deixando que cada um descubra isso em seu próprio ritmo.
Afinal de contas, isso vai acontecer de qualquer modo.
Relaxe, meu amor.
Eu amo você.
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