09. Acorda, Irmão!

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ACORDA, IRMÃO!

(Poema captado na fala dos pássaros.)

Acorda, irmão!

Olha ao teu redor.

Por acaso notas algo diferente?

Olha um pouco o que não depende

da força de algum motor.

Olha o que vive sem nada,

sem salário, sem mansão,

sem carro, iate, relógio,

internete ou televisão!

Olha para quem bate asas

na árvore da tua rua.

Percebeste que não há nada

que perturbe a vida sua?

Esses nunca pedem esmola

nem nunca vão à escola,

nem precisam de aparelhos

para se comunicar.

Eles não usam radar,

nem lêiser, nem quebra-molas!

Nem precisam de escolta

para fazer espetáculo,

muito menos usam óculos

para ver o que há no ar!

Eles cantam ao despertar,

e encantam quem pode ouvir,

mostram que a vida é um devir

e que o passado não há!

Não têm memória do luto,

não sofrem com o escorbuto,

nem há SIDA que os persiga

ou que não os deixem dormir!

Voejam de galho em galho,

se alimentam do que houver,

não batem na tua porta,

não vivem das tuas sobras,

não precisam de tuas leis,

e não admiram tuas obras!

Que importa se tu és rei,

ou mendigo, ou general,

alguém do bem ou do mal,

mesquinho, bonzinho, asceta?

Nunca estudaram ética,

nem acumulam riqueza,

só vivem do que encontram

sobrando na natureza,

nem se importam com a beleza

que nós achamos que têm,

estão cagando na cabeça.

Escuta, irmão, o seu canto

às cinco horas da tarde,

ou às nove da manhã,

não precisam bater ponto,

cantam sem fazer alarde,

sua mente é sempre sã.

Imagina, meu irmão,

se tu pudesses viver

como quem canta lá fora

na calma do entardecer!

Não há nada que se compare

a ser sem ter que se ser.

Ser apenas, natural,

sem tensão, sem artifícios,

sem creche, sem hospital,

sem prisão e sem hospícios!

Ser sem obrigação,

só por ser o que se é,

sem roupas, condenação,

sem culpa, sem rejeição.

Ser porque simplesmente é!

Sem mística, sem outro mundo,

sem medos, mistérios profundos,

arcanos, segredos, surtos,

sem lutar pelo que é justo!

Ser, somente ser, e ir sendo,

vir a ser, esquecer, tornar-se

aquilo que se quiser,

mudar se assim for preciso,

aceitar o que é vivido,

comer o que for servido,

dar graças ao que vier.

Ser sem futuro, pretérito,

perfeito ou imperfeito,

viver o mais que perfeito,

sem crédito ou mérito até.

Sem os autorais direitos

da melodia criada,

trinar só pelo prazer

de ver a obra cantada,

e por prazer cantar mais,

doar não importa a quem,

dar a dez, vinte ou cem,

mil, milhares, milhões.

Emitir as vibrações,

espalhar na atmosfera

um cântico a plenos pulmões,

acalmar feras e belas,

ser ouvido nos sertões,

nos litorais, nas favelas,

nas calçadas, nas janelas,

nos cortiços, nos salões!

Cantar e ser como o mar,

que abriga vida em seu canto,

cantar como a cachoeira,

que protege com seu manto

de tecido imaculado

as vidas que se produzem

em seus rochedos molhados.

Cantar e ser como queira,

cantar e ser, simplesmente,

cantar, cantar, cantar,

ser, ser, ser semente

solta voando no ar

indo aonde o vento vente

ser estando, ser sendo, somente.

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