10. O Homem Inviável

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O Homem Inviável
Não conheço a sensação
de estar realizado
nunca fui um vencedor
fiz coleção de fracassos
fileira de frustração
sou quem foi abandonado
renegado e rejeitado
esquecido e apunhalado
pelo seu ser mais amado
me alimentei de mágoas
fui recolhendo as migalhas
traguei a indiferença
sou quem padeceu de pragas
o que sofreu com as crenças
e incuráveis doenças
que não foi ouvido ou visto
que foi embora sozinho
fez da alma um calabouço
e traz no bolso o vazio
sou o que não tem amigos
nem ascensão social
não tenho árvore de natal
não tenho nem mesmo vícios
muito menos tenho ofício
quanto mais leito em hospital
não celebro aniversário
não conheço adversário
que me derrote no mal
na costa fui um corsário
que se embrenhou na barbárie
acabei virando alvo
de meu próprio bumerangue
de ladrão tornei-me escravo
derramei meu próprio sangue
dormi bêbado nas calçadas
fui embora de sarjeta
provei da bebida amarga
dei murro em ponta de faca
me espetei em baioneta
minha bruxa nunca foi fada
minha carne nunca foi viva
perambulo pela estrada
que nunca vai dar em nada
pois não tenho direção
rolo pela contramão
subo pela correnteza
navego sem ter timão
num barco sempre à deriva
fui quem nasceu pra servir
trabalhar sem receber
cumprir ordens e dever
sem reclamar ou sorrir
laborar sem ter salário
espantar como espantalho
sem passado e sem porvir
não ter voz nem ter caralho
nem bola, bar ou baralho
não meditar nem mentir
não fui feito pra pensar
não sei o que é pão-de-ló
fui feito só pra ser só
e somente labutar
plantar roça, capinar,
usar sempre a força bruta
ser um animal na conduta
não comer, mas devorar
não sentir sexto-sentido
e não ter intuição
desenvolver só o instinto
de viver na solidão
ser um cachorro arredio
passar sede, fome e frio
nunca dividir o pão
ser um asno ou boi-de-carro
ser capacho ou ser capado
ser um Teseu sem tesão
nunca procurar abrigo
não sair do labirinto
não ver o fio estendido
e não sair da prisão
fui gerado pra ser braço
da lavoura e do cercado
um remo que move o barco
na calmaria ou tufão
carregar a dor e o fardo
como burro ou como gado
ir onde for destinado
obedecer ao patrão
ser um novilho no prado
ser um cavalo encilhado
no xadrez ser um peão
sangrar até não poder
me exaurir até morrer
não alcançar redenção
fui criado para crer
que isso é o que há pra se ver
neste mundo de ilusão
que toda paz é postiça
prostituta da justiça
e refém de pelotão
e a liberdade é uma puta
que anda de saia justa
escrava de cafetão
e que nós somos robôs
bobos roubados, cocôs,
feito operário-padrão
máquina de fazer dinheiro
enricador de banqueiro
produtor sem produção
um corpo mecanizado
cérebro automatizado
programado para a ação
um número, uma identidade,
uma foto, um corpo, uma idade
endereço e posição
pai, mãe, filho, casa, carro
um mecanismo ajustado
mercadoria em leilão
com prazo de garantia
valendo pela valia
e data de expiração
e que o tempo nesta terra
se passa em fila de espera
para deitar no caixão
depois disso é o esquecimento,
busto, placa, monumento
ou sala de convenção
não se fala em sentimento,
dor, rancor, raiva ou lamento,
felicidade e paixão
quem sentiu em si o amor
quem sabe o que é a dor
de perder a quem se ama
amar até às entranhas
e perder tudo depois
ter o coração rasgado
levado por quem se foi
sentir no oco do peito
pulsando descompassado
um sofrimento sem jeito
batendo desalinhado
como um sujeito suspeito
andando meio de lado
com o espírito desfeito
um pouco desencarnado
como quem corre aos soluços
com a garganta feito nó
ou como quem cai de bruços
dando com a cara no pó
e que tenta respirar
com a boca na poeira
e vai morrer na soleira
sem poder voltar ao lar
sou esse homem inviável
refugo não reciclável
a matéria do monturo
o descenso do detrito
eu sou a mudez do grito
da sombra eu sou o escuro
sou um herói às avessas
que só conquista derrotas
sou um capitão sem frotas
comemoração sem festa
ou um avião sem rota
que vai bater nas encostas
como uma face sem testa
que perde o rumo da porta
eu sou essa coisa morta
zumbi que erra nas trevas
sou daninho como as ervas
que ninguém quis arrancar
mas…
continuo vivendo
ou…
morrendo devagar
ou…
quem sabe vou voar
viver de velocidade
esquecer a densidade
e assim parar de vagar
me acamar com as estrelas
viver com a beleza delas
me alimentar de luz
repousar no firmamento
ver Deus a todo momento
meu sonho é quem me conduz
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