10. O Homem Inviável


Oil on canvas.
Image via Wikipedia

O Homem Inviável

Não conheço a sensação

de estar realizado

nunca fui um vencedor

fiz coleção de fracassos

fileira de frustração

sou quem foi abandonado

renegado e rejeitado

esquecido e apunhalado

pelo seu ser mais amado

me alimentei de mágoas

fui recolhendo as migalhas

traguei a indiferença

sou quem padeceu de pragas

o que sofreu com as crenças

e incuráveis doenças

que não foi ouvido ou visto

que foi embora sozinho

fez da alma um calabouço

e traz no bolso o vazio

sou o que não tem amigos

nem ascensão social

não tenho árvore de natal

não tenho nem mesmo vícios

muito menos tenho ofício

quanto mais leito em hospital

não celebro aniversário

não conheço adversário

que me derrote no mal

na costa fui um corsário

que se embrenhou na barbárie

acabei virando alvo

de meu próprio bumerangue

de ladrão tornei-me escravo

derramei meu próprio sangue

dormi bêbado nas calçadas

fui embora de sarjeta

provei da bebida amarga

dei murro em ponta de faca

me espetei em baioneta

minha bruxa nunca foi fada

minha carne nunca foi viva

perambulo pela estrada

que nunca vai dar em nada

pois não tenho direção

rolo pela contramão

subo pela correnteza

navego sem ter timão

num barco sempre à deriva

fui quem nasceu pra servir

trabalhar sem receber

cumprir ordens e dever

sem reclamar ou sorrir

laborar sem ter salário

espantar como espantalho

sem passado e sem porvir

não ter voz nem ter caralho

nem bola, bar ou baralho

não meditar nem mentir

não fui feito pra pensar

não sei o que é pão-de-ló

fui feito só pra ser só

e somente labutar

plantar roça, capinar,

usar sempre a força bruta

ser um animal na conduta

não comer, mas devorar

não sentir sexto-sentido

e não ter intuição

desenvolver só o instinto

de viver na solidão

ser um cachorro arredio

passar sede, fome e frio

nunca dividir o pão

ser um asno ou boi-de-carro

ser capacho ou ser capado

ser um Teseu sem tesão

nunca procurar abrigo

não sair do labirinto

não ver o fio estendido

e não sair da prisão

fui gerado pra ser braço

da lavoura e do cercado

um remo que move o barco

na calmaria ou tufão

carregar a dor e o fardo

como burro ou como gado

ir onde for destinado

obedecer ao patrão

ser um novilho no prado

ser um cavalo encilhado

no xadrez ser um peão

sangrar até não poder

me exaurir até morrer

não alcançar redenção

fui criado para crer

que isso é o que há pra se ver

neste mundo de ilusão

que toda paz é postiça

prostituta da justiça

e refém de pelotão

e a liberdade é uma puta

que anda de saia justa

escrava de cafetão

e que nós somos robôs

bobos roubados, cocôs,

feito operário-padrão

máquina de fazer dinheiro

enricador de banqueiro

produtor sem produção

um corpo mecanizado

cérebro automatizado

programado para a ação

um número, uma identidade,

uma foto, um corpo, uma idade

endereço e posição

pai, mãe, filho, casa, carro

um mecanismo ajustado

mercadoria em leilão

com prazo de garantia

valendo pela valia

e data de expiração

e que o tempo nesta terra

se passa em fila de espera

para deitar no caixão

depois disso é o esquecimento,

busto, placa, monumento

ou sala de convenção

não se fala em sentimento,

dor, rancor, raiva ou lamento,

felicidade e paixão

quem sentiu em si o amor

quem sabe o que é a dor

de perder a quem se ama

amar até às entranhas

e perder tudo depois

ter o coração rasgado

levado por quem se foi

sentir no oco do peito

pulsando descompassado

um sofrimento sem jeito

batendo desalinhado

como um sujeito suspeito

andando meio de lado

com o espírito desfeito

um pouco desencarnado

como quem corre aos soluços

com a garganta feito nó

ou como quem cai de bruços

dando com a cara no pó

e que tenta respirar

com a boca na poeira

e vai morrer na soleira

sem poder voltar ao lar

sou esse homem inviável

refugo não reciclável

a matéria do monturo

o descenso do detrito

eu sou a mudez do grito

da sombra eu sou o escuro

sou um herói às avessas

que só conquista derrotas

sou um capitão sem frotas

comemoração sem festa

ou um avião sem rota

que vai bater nas encostas

como uma face sem testa

que perde o rumo da porta

eu sou essa coisa morta

zumbi que erra nas trevas

sou daninho como as ervas

que ninguém quis arrancar

mas…

continuo vivendo

ou…

morrendo devagar

ou…

quem sabe vou voar

viver de velocidade

esquecer a densidade

e assim parar de vagar

me acamar com as estrelas

viver com a beleza delas

me alimentar de luz

repousar no firmamento

ver Deus a todo momento

meu sonho é quem me conduz

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