11. O SER

Paradise by Jan Bruegel.
Image via Wikipedia

O SER

O Ser é sem temor

sem regras

sem medo de entregas

sem dor

O Ser é tranqüilo

ser é o natural do Ser

ele pode até não ser

pode ser isto ou aquilo

tanto faz ser ou não ser

o ser não se pré-ocupa

o ser somente se ocupa

do que tu quiseres ser

tu é que te pré-ocupas

com as coisas que queres ter

e se não tens, tu te culpas

julgando não merecer

o ser até brinca de ser

aliás, ele só brinca

o ser é uma criança

que se esqueceu de crescer

ser não sabe ser adulto

que adulto não sabe ser

e nem sabe que não sabe

muito menos que só crê

adulto pensa saber

e que criança não pensa

vive redeado de crença,

de razão e de sofrer

o ser é só sapiência

ou paciência, se preferes

o ser também é ciência

ciente do que tu queres

e espera sem esperança

que esperança desespera

espera até a morte dela

o findar de toda ânsia

o ser prefere a dança,

o balanço, o movimento

da onda que vem com o vento

quebrando ligeira ou mansa

qualquer coisa é a mesma coisa

tanto fez com tanto faz

alto e baixo, guerra ou paz

rico, pobre, voa ou pousa

o ser está sempre certo

mesmo que esteja errado

mesmo ao contrário, reverso

o avesso é o mesmo lado

o ser é tudo que queiras

que ele seja, ser escravo,

ser senhor, viver à beira

do abismo, covarde ou bravo

ele é o ser superior

nossa vontade perfeita

lhe entregue tudo, tua dor,

e a alquimia está feita

abra mão de teu controle

poder é uma bolha vazia

é tudo uma ilusão de posse

maia, máscara, fantasia

realmente não sabemos

o que fazemos na vida

mas pelo menos podemos

abandonar a corrida

dar um tempo, que só tempo

é que nos resta na terra;

pára, medita, contempla,

vá num compasso mais lento

Por que toda essa pressa

de se deitar no caixão,

deixar esta dimensão,

perder toda essa festa?

O ser não tem ânsia não

de fazer o que é preciso

o faz no tempo medido

unificado na ação

só precisa ser chamado

basta um aceno de mão

é o mais sincero aliado

para a tua salvação

de fato, ele só espera

que baixes a tua guarda

desfaças a tua couraça

derretas tuas geleiras

que o sangue aqueça nas veias

vivificando teu corpo

que enterres o teu morto

que desbloqueies as artérias

e que ouças o silêncio

que há dentro de ti mesmo

que deixes teu pensamento

solto, vagando a esmo

até ouvires uma voz

que fala sem perturbar

dialoga sem falar

que articula sem sons

que transmite sem ruído

que guia sem indicar

é como saber andar

é o teu sexto sentido

tu só tens que confiar

é simples, intuitivo,

é como ter fé e orar

deixar nas mãos do divino

é como se entregar

aos poderes do altíssimo

mas lembra que isto está

no teu mais profundo íntimo

daí é que emergirá

tua sensação de vida

a direção que darás

à tua força criativa

ao amor que vai brotar

lá do fundo do teu peito

tu que decidirás

que é livre o teu arbítrio

toda tua dor se desfaz

dissolvem-se os conflitos

tornas-te um in-divíduo

unificado na paz

que o ser é um deus bendito

que não depende de nós

nós é que vivemos sós

de si mesmos esquecidos

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