12. A Voz do Mar
—
Amigo, escuta,
o som do mar,
na sua labuta
crepuscular.
—
Ele não pensa
no amanhã,
nem recompensa
a vaga vã.
—
O mar medita
na umidade,
ele dormita
na unidade.
—
Ouça a oração
de sua maré,
sua doação
de farta fé,
—
sua confiança
na amplidão,
a sua dança
na imensidão
—
de seus abismos
ou do espaço,
não teme sismos
em seu regaço.
—
Ama o rochedo,
o corpo pétreo,
o seu relevo
de amante terno,
—
onde descansa
seu corpo aquoso
na barra mansa,
lábio musgoso,
—
onde fecunda
seu ventre líquido,
a fossa funda,
o esconderijo
—
de muitas formas
que a vida assume
ou que em suas orlas
se dão a lume.
—
A voz do mar
que vem no vento
faz retornar
nosso lamento.
—
Como refugo
que volta à praia,
como repuxo,
que tudo arrasta.
—
Como a bonança
após tormenta,
feito esperança
que alimenta
—
um velho barco
sem direção
que está sem mastro
e sem timão,
—
o oceano
nos enuncia
o nosso engano,
onda vazia:
—
que a tempestade
e a calmaria
são de verdade
a sua via.
—
Dualidade
da superfície,
realidade
de quem os visse.
—
No fundo, o mar
chegou ao fundo
de si, lugar
melhor do mundo.
—
A paz eterna
da natureza,
a calma terna
da profundeza.
—
Tranqüilidade,
pura beleza,
a densidade,
nunca a dureza.
—
Contempla o mar,
meu caro amigo,
sem perturbar
esse ser vivo.
—
Tenta entender
o que o mar diz,
não vá fazer
o que eu não fiz!
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