20. TODA PAZ É PERFEITA

TODA PAZ É PERFEITA

(Dedico este poema a Austro Queiroz,  mestre amado, Amigo, pai, irmão.

A ti, meu irmão, toda minha gratidão.)

Toda paz é perfeita.

Ela é em si mesma, não é preciso fazê-la.

A paz busca a paz.

Ela mesma se recria.

Há uma paz dentro da gente que se reproduz sozinha.

Se regenera como a natureza.

Não precisamos criar a paz.

A paz já está, ela já é!

Inexorável, inevitável, a paz virá para cada um de nós.

Ela espera no fundo de cada um de nós.

Ela preexiste a nós.

Nós não produzimos paz, nós somos fruto dela.

A paz é o útero que gesta toda criação.

Ela está dentro de nós e ao nosso redor.

A paz nos rodeia e nos permeia,

como a atmosfera.

Assim como não sabemos respirar,

não sabemos vê-la.

Mesmo neste momento fica uma voz na minha cabeça, como há na sua, tentando se apoderar da paz.

Mas essa voz não tem mais força, não tem mais comando.

Esse anjo portador da luz que tenta se apropriar dela.

Ele está cansado de tentar controlar, em vão, a luz que passa.

A voz inaudível da paz simplesmente ouve esta outra voz agônica e a acolhe, pois a paz compreende que o anjo está exausto deste longo combate.

E a paz passa incólume.

Irmão, renda-se à paz que existe em você.

Ela aguarda pacientemente, por toda a eternidade, que você se renda a ela.

Que você entenda, finalmente, que você nada sabe.

Que pare de se debater dentro de você mesmo com milhares de pensamentos desencontrados.

Que você cesse esse combate e repouse dentro de seu próprio peito, descanse, recupere-se deste cansaço de décadas lutando em si mesmo e contra si próprio.

Irmão, ouça a voz que vem do fundo de seu coração.

Não é uma voz que grita.

É uma voz que fala sem falar.

E, para ouvi-la, é preciso estar em silêncio, meditar, ficar sozinho consigo mesmo, conhecer sua própria cabeça, cada centímetro de sua mente.

O fundo do universo se manifesta em cada um de nós.

No fundo de nós mesmos, este fundo de tudo que existe, esta energia vital, este movimento cósmico está se mostrando.

Mas é preciso aprender a irmos cada vez mais para o fundo de nós mesmos.

Penetrarmos nossas camadas mais profundas para chegar a ele.

E este fundo é a paz absoluta de Deus.

É um oceano sem ondas.

É o movimento mínimo, é o andamento mais lento da sinfonia universal.

É preciso reduzir o passo, acalmar a caminhada.

Cessar a corrida rumo ao nada.

É preciso uma parada.

É, meu irmão, para ouvir este som de água imobilizada.

Para ouvir a bactéria que se reproduz sem ser observada.

Água parada não é água morta.

Há vida dentro dela.

Há um movimento imperceptível aos nossos olhos.

Por isso confundimos paz com letargia.

Paz é o movimento mínimo para o resultado máximo.

A natureza não faz alarde de seu trabalho.

A natureza está em paz.

A natureza vive em paz.

Ela não apressa seu passo.

Tudo na natureza acontece no momento certo.

Tudo é perfeito.

Ciclos dentro de ciclos dentro de outros ciclos sem fim.

O movimento harmonioso do todo.

Como saber o que é lento ou o que é rápido?

Como saber o que é certo ou o que é errado?

Como saber o que é perda e o que é ganho?

Quando tudo perdemos, tudo ganhamos.

Como saber o que é o nada?

Não há como saber.

Tamanho é só um nível de comparação.

Nível dos átomos.

Nível da matéria visível aos nossos olhos.

Nível da matéria gigantesca invisível aos nossos olhos.

E da matéria microscópica invisível aos nossos olhos.

Mundos dentro de mundos em milhares de níveis.

Como saber qual é o nosso nível nisso tudo?

Não é preciso saber.

A vida já é milagre suficiente.

O êxtase da vida é tão intenso que o tememos.

Buscamos isso a vida toda, mas não o encontramos por causa do pânico crônico que está escondido nas profundezas de nosso inconsciente que nos faz recear o encontro com o êxtase.

Buscamos e tememos.

Desejo e medo.

Mas o medo tem vencido.

Temos nos acovardado e nos entregado à mediocridade do medo.

O medo nos torna médios, medianos, medrosos, presos a crenças medíocres, a verdades parciais.

Mas o medo só está aí para nos mostrar o caminho.

O medo é o caminho.

Não fiquemos com medo do medo.

O medo é a estrada para o outro lado dele mesmo.

O outro lado do medo é a paz do todo.

A paz absoluta de Deus.

Mas também foi dado a Deus um rosto de medo.

Fizeram de Deus um espectro de medo.

Aí ficamos com medo de Deus.

Ficamos com medo da paz.

Passamos nossa vida aqui em busca da paz, mas ela se torna o que mais tememos.

Este é um paradoxo semelhante ao paradoxo da perda e ganho.

Quando admitimos a perda total, nos rendemos a ela, com toda nossa sinceridade e honestidade de sentimentos, a aceitamos, a assumimos e temos paciência para entender que tudo simplesmente é, ou seja, tudo são apenas fatos sem melodrama, quando estendemos toda nossa compreensão a isso, a perda se desfaz e se torna um ganho.

Ela não terá mais a menor importância frente à paz que nos invade.

Essas são as duas faces da mesma moeda.

Assim é o que acontece com o medo e a paz.

O verso é o medo.

O reverso é a paz.

Se tivermos calma para entrar em nosso medo, não ter medo desse medo, aprender a pensar o medo e não ser pensado por ele, aprender a seguir nossa vontade real e não uma obediência a um comando irracional e morto, por não ter sentido, aceitá-lo, passar por dentro dele, integrá-lo a nós, tomá-lo no colo como uma criancinha indefesa que, ao imaginar que está desprotegida e que vai ser atacada, reage a tudo com agressividade, e desta forma protegê-lo, compreendê-lo, no sentido mais amplo, que é envolvê-lo num abraço de carinho, como uma mãe amorosa faz com seu filhinho recém-nascido, então esse medo, como a criança antes receosa e desconfiada, se entregará em seus braços e cederá aos seus cuidados e você então verá um sol diferente nascer no horizonte de sua vida. Como um grande Amigo me ensinou, é olhar para toda essa inquietação e substituí-la por uma Em Quieta Ação, que é o antídoto para a paranóia e falta de confiança em si. Só essa idéia vai desativando todo medo e todo ódio e paranóia, parando de alimentar essa sensação de medo que paralisa o coração das pessoas. Quando há um medo real, de fato, que te revela um perigo iminente, ele aciona imediatamente as tuas pernas, e te faz correr, ou frear o carro. Ou diminuir a velocidade num dia de chuva. Qualquer outro medo que apenas ocupa espaço desnecessário na tua cabeça está aí apenas para te paralisar, ele é irreal, imaginário. Mas agora ele tem antídoto, que é trabalhar Em Quieta Ação, que esta ação quieta, por si só, vai diluindo todo medo residente sem razão de ser. Até porque, quando o medo é real e vem pra te avisar de um perigo real do qual você foge usando as pernas, quando a situação passa, você respira fundo, recupera o fôlego e volta à tranqüilidade habitual. Assim, o medo num contexto real é diferente dessa paranóia sem razão de ser, que só pode ser desativada pela paz de ação quieta, tranqüila, leve, amorosa e carinhosa, de diálogo, paciência e amor. Quando você entende isso, e passa a se pensar em vez de seguir a vida como um robô, buscando realizar o que você realmente quer para si na vida, você estará em paz. E levará isso aos outros, para aquietar o coração deles também, para que possamos trabalhar juntos para que mais e mais pessoas possam se pensar em paz.

E assim veremos nascer o sol da paz, a estrela mais brilhante no céu do nosso espaço interior.

Você brilhará de dentro para fora, como brilha tranqüila a via-láctea nos céus noturnos, nossa amada galáxia, lar estelar.

Esta é a sua, nossa paz.

Uma galáxia inteira de sóis brilhantes, como um infinito colar de diamantes que usaremos dentro do peito, adornando nosso coração pulsante, vibrante e luzente, feito do mais puro ouro da vida.

Essas são as verdadeiras jóias, pois elas não podem jamais ser roubadas.

Ao conquistá-las, você tem apenas a eternidade inteira para usá-las, gozar o gozo eterno da paz alcançada.

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