22. “É DANDO QUE SE RECEBE”

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Você anda pedindo ou roubando migalhas, meu amor?
—
Oi, meu amor, o que você pensa que está fazendo, roubando migalhas?
O que é que faz você imaginar que nada tem, meu amor?
O que é que faz de você alguém vazio, incriativo, sem sonhos, sem parceria?
O que é que faz você mergulhar nessa solidão em meio a tanta gente?
Faz você se isolar e não procurar o abrigo da amizade?
Que devaneio é esse que faz da sua vida um caminho solitário?
Que pesadelo é esse que afasta todos de sua volta?
Quem você pensa que é, meu amor?
Afinal, quem você pensa que você é, você é.
Você é o que você pensa.
E o que é que faz você pensar assim, meu amor?
O que é que faz você tentar ser quem você não é e não querer ser quem você é?
O que é que lhe alheia de você mesma?
Que vida é essa perdida num labirinto sem fio?
Que ilusão é essa que faz de seu viver uma exclusão?
Que deus é esse que você inventou, que exclui dele mesmo uma de suas criaturas?
Como é que podemos conceber um deus intolerante, ameaçador, que mata seus próprios filhos?
Como podemos imaginar que um deus que seja o todo possa existir sem uma de suas partes?
O todo sem a parte não é todo.
Qualquer todo que perca ou se prive de uma de suas partes não pode mais ser chamado de todo.
Então como é que você, que é parte do todo como toda parte o é, possa continuar crendo que você, possa estar separado do todo?
Você não acha que esse seria um deus muito merda e muito vingativo para ficar punindo raivosamente uma parte de si mesmo que ele imagina não ser boa o suficiente para ser parte dele?
Mas se ele é o deus e como qualquer deus ele é perfeito em tudo, como é que ele se expandiria e, multiplicando-se em milhares de outras formas, todas semelhantes em essência a ele mesmo, e sendo todas elas formadas a partir dele mesmo e dentro da sua própria criação, como é que ele criaria uma forma de vida que não fosse perfeita e, consequentemente e obviamente, divina, e por esse motivo ele a eliminaria de si mesmo?
Não acha que um deus assim seria um deus muito burro?
Você gostaria de ser filho de um deus assim?
Você acha que um deus que faça isso possa ser chamado de “Todo”, e ainda por cima Poderoso?
—
Mas, por mais paradoxal que pareça, você acredita nisso.
Você crê piamente que Deus seja um deus como o descrito acima.
Se não fosse assim, por que você viveria nessa vida de merda que você leva, nessa infelicidade, nessa vingança contra Deus?
Seu ódio não é contra pai ou mãe ou irmãos ou vizinhos.
Entre em si mesma, meu amor, seu ódio e sua vingança são diretamente contra Deus, que você imagina que seja um deus-filho-da-puta que excluiu você, uma de suas criaturas, dele mesmo.
Você vive num delírio diário.
O delírio da separação.
Não é a toa que isso se chama “ilusão de separação”.
Essa separação que você imagina existir entre você e Deus é absolutamente ilusória, meu amor.
E vou contar mais, ela só existe na sua cabeça.
Afinal de contas, ou esse deus é um bostinha mesmo, e não sabe criar nada, e não tem a menor idéia do que seja o todo, ou então, meu amor, essa viagem toda só se passa na sua cabeça.
Se pensarmos num Deus que é o Todo, que seja um infinito dentro-sem-fora, como poderemos nós estar fora de Deus?
E ainda se o Todo está inteiro em tudo, pois, não me canso de repetir, como dizia o poeta Gregório de Matos: “O todo sem a parte não é todo / A parte sem o todo não é parte…”, como você pode ser parte de Deus e estar fora Dele?
E sendo parte de Deus, como pode Ele estar fora de você?
Como o Divino vai criar algo que não seja divino?
Como o Amor cria algo que não seja amoroso?
Como construir algo com pedra e isso não ser uma construção pétrea?
Como fazer algo com água e isso não ser aquoso?
Como um animal aquático, que não tem pulmão, vai viver fora da água?
Pode o ar não ser airado?
Pode o círculo não ser redondo?
Pode o inferno não ser infernal?
E o céu não ser celestial?
E o paraíso não ser paradisíaco?
Pode a obviedade não ser óbvia?
Pode a luz não iluminar?
E a escuridão deixar de ser escura?
Onde houver claridade, não é mais o escuro, é a luz.
Pode o fogo não queimar?
Pode a fome deixar de ser faminta?
E a saciedade não ser satisfeita?
A cegueira pode ver?
E a visão, pode ser cega?
Pode o mineral se mover na velocidade do vegetal?
Pode o vegetal se mover na velocidade do animal?
Pode um ser inteligente não ter inteligência?
E um sábio não ter sabedoria?
E um ignorante sem ignorância?
E a natureza, pode não ser natural?
Desde quando o mar não é marinho?
E o deserto não é desértico?
E por fim, pode um filho de Deus não ser divino?
Pare um pouco para pensar, meu amor.
Como você pode crer e criar sua vida sobre bases tão inconsistentes?
Que lógica é essa que inverte tudo e você nem se dá conta do absurdo e da incoerência?
Olhe à sua volta, meu amor, olhe a incoerência disso tudo.
Você não vê que tudo isso não tem lógica?
Como se assentar sobre verdades mutantes?
Uma coisa não deixa de ser o que ela é.
Assim como ela não pode ser o que ela não é.
Como as obviedades que eu disse acima, somente para ilustrar isso.
A natureza não pode deixar de ser natural.
Se houver alguma coisa que não seja natural, fique certo, não é a natureza!
Você não pode ser filha de Deus às vezes e às vezes não ser!
Você pode estar temporariamente esquecida do fato de ser filha de Deus, mas você jamais deixará de ser o que você sempre foi.
Mais uma pergunta, meu amor: o que tem mais sentido pra você: que Deus tenha esquecido de uma parte Dele mesmo, sem a qual Ele não pode, necessariamente, ser Ele mesmo, ser o Todo, ou que você esteja – momentaneamente – esquecida de que você é parte de Deus e que, portanto, Ele está em você sempre?
É preciso ser honesta consigo, meu amor.
Embora dentro da lógica do senso comum a resposta seja óbvia, pois nem vou responder aqui uma pergunta dessas, pode ser que seu ódio e sua vingança sejam tão grandes, meu amor, que você ainda prefira acreditar que Deus tenha se esquecido de uma parte Dele, ou seja, de você.
E por isso você ainda permaneça por um bom tempo culpando a Ele, na sua cegueira de achar que tudo seja culpa desse deus-merdinha que você acha que Ele seja.
Como disse o Filho Dele, enviado a nós para nos levar até ELE: “Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem!”
Como culpar e punir alguém que não sabe o que faz?
Se você acredita mesmo que está separada do seu próprio Pai (não confunda o Pai celeste com as broncas que você tem com o seu pai físico, carnal da terra, de quem na maioria das vezes você só vê o lado ruim, e nunca o Amor do Pai Eterno passando através dele), como você pode ser punida por algo que você ignora, meu amor?
Não veio Ele mesmo, na pessoa do Filho, dizer isso?
Neste nosso mundo de ilusão, acreditamos que cada corpo físico seja um filho separado.
Por isso nos sentimos excluídos do Pai, já que ele só tem UM Filho!
Mas o próprio filho Dele disse falando por Ele: “O Reino do Meu Pai não é deste mundo!”
Não se perca pelas palavras, meu amor.
Nosso corpo físico é um mero instrumento para transmitir a verdade do Reino, do Pai.
Somos um mero canal através do qual a Luz do Pai chega a este mundo.
Se subirmos o nível um pouquinho, sairmos um pouco da matéria e formos para um corpo menos denso, passarmos para o corpo emocional-sentimental e subirmos um pouquinho mais até chegarmos ao nível mental, perceberemos que aí não existe separação.
A Física já nos mostra isso.
Ao nível da energia, não existe separação, somos todos UM só corpo mental.
A separação que aparentemente existe aos nossos olhos só se dá porque olhamos com os olhos do corpo físico para os corpos físicos ao nosso redor.
E por acreditar nessa separação que constatamos com nossos olhos físicos é que cremos estar separados também Daquele que nos criou.
Mesmo que chamemos o Todo que nos criou de universo, cosmos, o vazio, o nada, ou Deus, o fundo ou o amor, nada muda.
Cada um fica com o conceito que lhe parecer mais adequado.
O que realmente importa é o fato de que nossa separação é totalmente ilusória.
E que ela só existe no tempo.
Falo aqui do tempo cronológico inventado por seres humanos para medir o tempo terrestre e assim organizar nossa vida aqui na terra dentro de uma linearidade aparente.
Assim como este tempo é ilusório e restrito, nossa crença na separação também é.
Por isso, meu amor, eu perguntei no início, por que pedir ou roubar migalhas?
Se estamos conectados com o todo o tempo todo, se somos parte do todo e o todo está em nós, toda a abundância do todo, do universo está à nossa espera, eternamente, só aguardando que saiamos dessa ilusão de nada ter, até que paremos de ficar catando ou roubando migalhas.
Diga, meu amor, não é um delírio, roubar migalhas quando podemos ter acesso à abundância do universo, já que somos filhos Dele e ele está todo em nós?
Não se iluda mais, meu amor, este todo está inteiro dentro de você.
Assim como nossa única missão aqui neste planeta é entender isso, – nossa passagem por aqui se repetirá intermitentemente até percebermos que passamos vidas delirando num pesadelo criado pela nossa própria cabeça – , a única maneira de descobrir toda a abundância do universo é expressando-a, compartilhando-a com os demais.
Quanto mais você compartilhar o que você tiver, mais isso aumenta.
Você não perde o que você dá, meu amor.
Como ensina outro grande Mestre, São Francisco: é dando que se recebe. Por uma simples legitimidade de consciência: ao dar, nossa consciência se abre para receber. Pois nossa consciência só atua em legitimidade. Alguém pode roubar milhões, mas a consciência dessa pessoa jamais o deixará usufruir disso, e a própria consciência dessa pessoa a fará jogar tudo fora. É como um ladrão que rouba um relógio de dez mil reais e vende por cem reais. A própria consciência dele o impede de usufruir do valor daquele bem. Ou alguém que rouba um carro de 200 mil reais e vende por cinco mil reais. Dá no mesmo. Nossa consciência só age por legitimidade. Nós sequer podemos tomar o posto de outra pessoa, pois nossa consciência nos impedirá de cumprirmos aquela função. Ou qualquer outra coisa, como roubar uma idéia, em vez de indicar o autor dela, assim como reconhecer quando a idéia é original de si mesmo. Nossa consciência não nos permite roubar sequer um pedaço de pão. E não se iluda nem com os mendigos, pois muita gente acha que mendigos são ladrões. Já foi provado por estatísticas que apenas 3% (três) dos moradores de rua são ladrões, e isso numa cidade como o Rio de Janeiro, onde existem muitos pobres. E a maioria absoluta deles não são ladrões. Porque eles podem ser pobres, mendigos, mas eles não roubam, eles PEDEM, é diferente!
Deste modo, lembrando que nossa consciência não nos permitirá receber se nós não dermos, enquanto a gente não dá, a gente não aceita receber, meu amor.
Essa é a lógica, não é que você não possa receber o que vem para você, é que você não aceitará isso.
Só a prática do dar fará você aceitar o que lhe é dado.
Comece, então, meu amor, a dar.
Dê o que você puder.
Não importa.
Mas também se lembre que se você der ódio, ele também retorna.
Tudo que você der retorna a você.
Então pense no que você quer receber e dê.
Quer alegria? Dê alegria.
Quer amor? Dê amor.
Quer abundância? Dê abundância.
Quem dá guerra recebe guerra.
Mas quem dá paz recebe paz.
Isso é mais uma questão de inteligência do que de bondade, como diz um grande Amigo meu.
Você não estaria sendo falsamente bondosa com os outros.
Você estará sendo honestamente egoísta, meu amor.
Mas quanto mais egoísta você for, melhor.
Pois quanto mais egoísta você for, dando aquilo que você deseja para você mesma, mais você estará compartilhando o que você tem e assim expandindo isso.
O que é muito diferente de usar os outros somente para acumular, o que é mais ou menos como roubar migalhas.
Afinal, o que são alguns bilhões ou trilhões de dólares comparado com a abundância do universo inteiro?
Por que vamos querer acumular bilhões de dólares embaixo do nosso colchão, gastar nossa vida numa preocupação pagando guardas de segurança, se podemos dar aos outros toda a abundância do universo?
E gozar disso o tempo todo!!
Sem se preocupar um único momento com proteção, alarmes, desconfiança, roubo?
Você está captando a lógica do que estou dizendo, meu amor?
Então não perca mais tempo, comece a dar.
Sorrisos, beijos, abraços, presentes, carinho, alegria, o que você quiser dar a quem você quiser.
Não importa o que você vai dar.
Importa é o seu pensamento de dar.
Você poder estar dando um minúsculo brinco de prata ou latão, mas o que interessa é a intenção do seu presente.
Se sua intenção é sincera, não importa a forma que tomará o seu presente, ele chegará ao coração de quem o vai receber.
E não se preocupe ou se desespere se algumas pessoas não entendam ou não percebam o seu dar.
Apenas continue dando.
Apenas isso importa.
Termino aqui enviando a você, meu amor, que é e sempre será parte de mim e de tudo e de todos, todo o meu amor.
Amo você!
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