25. Sobre Amar

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Image via Wikipedia

Sobre crenças e Amor

Oi, minha amada, você um dia se apaixonou perdidamente por uma pessoa, não foi?

Você amou essa pessoa em segredo e esse sentimento corroeu seu coração por muito tempo.

Você se desfez em mil pedaços cada vez que essa pessoa amou uma outra pessoa, não foi?

Seu ciúme lhe amordaçou, pois você não deu seu braço a torcer.

Seu orgulho ferido, pra não dizer estraçalhado, jogou você no buraco mais profundo de abandono e desamor.

Você nunca conseguiu confiar em alguém, não é, minha amada?

Como é que você confiaria que o amor que você via no outro era sincero e puro como o seu?

Você teve essa ferida aberta e sangrando por muitos anos, não foi, minha amada?

E também não foi uma só vez.

Você se apaixonou muitas vezes, mas sempre a mesma resposta vinha ao encontro de seu amor: a rejeição.

Seu lindo amor nunca foi correspondido, ninguém conseguia ver o imenso amor que se escondia atrás de seus lindíssimos olhos tristes, não é, minha amada?

E você se isolou e odiou e se odiou.

E detestou o mundo.

E se enraiveceu.

E desejou mil vezes acabar com a própria vida, pra não ter que suportar essa falta de amor, esse deserto saárico que se estendia em seu peito.

E de noite essa solidão polar que se abatia sobre seu pobre coração já arrebentado.

E você assim agrediu o mundo, pois o mundo só lhe retornava abandono.

E você olhava pra si e via então um ser nojento, raivoso, feio, mau.

Você olhava no espelho e intuía que jamais receberia um amor como o que teimava em se mostrar nas camadas mais profundas de seu coração.

Você oscilava entre o fogo da raiva e o gelo da rejeição.

Você desejava ardentemente amar, mas não podia.

Pairava em sua cabeça algo semelhante a uma ordem contra o amor.

Você de algum modo captou esse comando de alguém e entendeu que isso era a verdade.

Que a verdade do mundo é que você não pode amar, não pode ter uma vida feliz ao lado de alguém que você ama.

E por acreditar que isso era a verdade, quando vinha alguém que sentia amor por você, meu amor, você sempre achava uma maneira de afastar essa pessoa.

E se perguntava: como é que alguém, totalmente odiável como eu, vai merecer receber amor?

Porque sua auto-rejeição atingia cem por cento facilmente.

Afinal, você freqüentou uma excelente escola de rejeição, aliás, você freqüentou a melhor, onde você aprendeu que você não tem valor algum, que você não merece afeto, carinho, amizade.

Você aprendeu que você não tem nem merece dignidade alguma, que você é reles, vil, baixa, e que qualquer merda é melhor do que você.

Merda serve para adubo, e você, meu amor, não serve nem para merda.

Trocar você por merda é prejuízo.

Mas essas foram crenças que você aprendeu com se fossem verdades, que você aprendeu do mundo, dos outros, como dizemos.

Mas hoje você já sente, meu amor, que essas crenças não têm mais tanta força assim.

Você já percebe que elas não são nem absolutas nem verdadeiras.

Você andou pelo mundo e conheceu pessoas.

E você viu que muitas outras pessoas vivem diferente e acreditam em coisas que são o oposto do que você acredita.

Mas você ainda receia, não é, minha amada?

E se você traísse seus antigos mestres, hein, minha amada?

Porque você já está se dando conta que acreditar nessas verdades provoca um rebuliço dentro de seu coração.

Há uma contradição latente em você.

Você já está percebendo que os seus próprios sentimentos estão sendo relegados a segundo ou terceiro planos.

Você está se dando conta que você está se traindo, minha linda amada.

E você está se odiando por isso.

E você já não sabe o que fazer.

Se você se trai, você se culpa e você se odeia por se trair.

Se você trai aos outros, você se culpa e se remói de remorso por isso.

Tudo isso já está deixando sua cabeça maluca, não é, minha linda?

O que você vai fazer?

Você pensa e pensa e pensa e você vê que tudo leva você para a culpa.

E o seu amor, onde e como fica?

Quando é que você vai amar, afinal?

Será que existe mesmo amor, paixão, ligação afetiva, inseparação com outros seres?

Será que existe um amor maior, um amor incondicional, um amor que não dependa de nada para existir?

Será que você vai conhecer um dia alguém que lhe ame tanto que largaria tudo no mundo e não se importaria com absolutamente mais nada, nem status, nem dinheiro, nem com seu cheiro, seu jeito de andar, com suas roupas ou qualquer outra coisa, apenas ficaria ao seu lado por lhe amar infinitamente?

Você se pergunta, meu amor, nas suas noites solitárias, inúmeras noites, dezenas, centenas, milhares de noites mal dormidas, chorando com seu travesseiro já empapado de tantas lágrimas correntes, se algum dia você finalmente encontrará esse amor.

E para piorar mais ainda, você se pune por não tê-lo encontrado ainda.

Porque acha que já devia ter passado por todas essas coisas.

Já devia conhecer o amor.

Já devia estar vivendo com o amor da sua vida.

Mas você nem sabe o que é o amor ainda, minha amada.

Você ainda está presa na sua dúvida. E você vai ficar nessa dúvida entre trair a si mesma e trair as suas crenças tomadas com verdades,  até o dia em que você não suportar mais, até o dia que, por exaustão total de viver nesse inferno, pois esse é o único e verdadeiro inferno, esse que a gente cria dentro do nosso próprio peito, pois então, minha amada, quando você ir até o limite absoluto de sua exaustão, aí então você se arriscará a tomar uma decisão.

Essa dúvida só está na sua cabeça pra forçar você a essa decisão.

E essa dúvida entre trair a si e trair às suas crenças vai perseguir seu coração até o mais profundo de seu inferno pessoal.

Você vai passar pelos sofrimentos mais horríveis, os tormentos mais tenebrosos, e essa maldita dúvida sempre dizendo olá pra você.

Mas você ainda posterga essa decisão.

Você fica pesando o que é pior: o seu inferno atual de dúvida ou a culpa que virá de sua traição.

E você sabe que a punição que você se impõe é certa.

Como qualquer juiz,  se você julga que há culpa no seus atos, você automaticamente se punirá.

Mas eu tenho algo a lhe dizer, minha amada: você não tem como saber o que você vai sentir depois de tomar a sua decisão.

Não importa se você vai optar por trair a si ou ao outro (suas crenças aprendidas com os outros).

Se você ainda julga seus atos, você vai se culpar e se punir por qualquer opção que escolher.

Então temos mais um item nessa estória: o julgamento.

Minha amada, eu confesso: você vai precisar suspender seu julgamento.

Não tem como você passar por tudo isso sem fazer uma suspensão de julgamento, sem parar por um instante a voz desse juiz implacável que ecoa dentro de sua cabeça, sempre ditando sentenças, porque ele sempre vai julgar culpada e você será punida.

Meu amor, você vai precisar suspender o julgamento.

Você vai precisar cometer o crime mais horrível para você: traição.

E você vai precisar de perdão.

Claro que tudo isso está ligado, se você suspende o julgamento, você vai olhar apenas para os fatos com isenção, avaliar o que está acontecendo e ver os efeitos.

E deixar que cada coisa vá para seu lugar, sem interferir.

Você vai precisar aceitar que as coisas serão como elas têm de ser.

E não como você acha que elas deviam ser.

Nesse espaço de suspensão de julgamento, meu amor, você vai tomar sua decisão:

trair a si (que na verdade é o que você fez a vida toda, mas agora você já viu que isso só age contra você mesma) e trair aos outros.

Uma certeza eu tenho: você não tem como sair de sua dúvida sem fazer uma escolha.

E ao fazer essa escolha, você vai assumir pagar o preço dela.

Pois ao escolher uma coisa, sempre perderemos outra. VIVER É OPTAR, diz o outro poema publicado nesta página.

A escolha nos traz isso: ganho e perda.

Ao ganhar perdemos e ao perder ganhamos.

Mas este é o mundo da ilusão, meu amor, aqui tudo se passa assim, sempre achamos que perdemos ou ganhamos.

Mas é aqui que vivemos e pra entender como este mundo funciona, precisamos passar por aí.

Pelos menos pode ser melhor do que viver no inferno eterno da dúvida, onde perdemos sempre.

Tudo bem, ganhamos desespero nele.

Mas você quer continuar ganhando desespero, meu amor?

Ou você já se cansou?

Pois bem, agora você já sabe que terá que tomar uma decisão para sair de sua dúvida.

Faça sua escolha, meu amor.

Mas lembre-se: o preço que você paga por se trair você já sabe.

Você passou a sua vida se traindo e se culpando e se punindo e se remoendo de culpa de novo por não conseguir sair desse círculo vicioso.

Você está num círculo vicioso, meu amor.

Na real, meu amor, sua escolha está entre continuar onde você está, ou seja, no inferno, ou decidir fazer algo diferente, ou seja, trair os outros e assim ser fiel ao que você sente.

Como você é um ser eterno, meu amor, assim como todos os outros, enquanto você não se decidir, você continuará eternamente nessa dúvida.

Isso pode levar vidas, como dizem os budistas.

Mas…

se você decidir ser fiel a si mesma, e portanto, trair aos outros, você pode descobrir um novo universo.

Não vou afirmar aqui que você entrará direto no paraíso.

Só posso afirmar que vai ser diferente de tudo que você já viveu.

Você vai finalmente ouvir essa voz que você teimou em calar no fundo de seu coração.

Você vai sentir o que é que estava escondido aí dentro.

Você vai ver que o mundo de fora é um reflexo do mundo de dentro de você.

Você vai ver que ao escolher fazer algo diferente dentro de seu coração, um mundo diferente, do lado de fora de seus olhos aparecerá para você.

E se você conseguir encontrar o amor que está dentro de seu peito e expressá-lo para o mundo, você vai ver que reflexos dele surgirão à sua frente (ele esteve e está sempre aí, a gente é que teima em não o ver).

Eu não dou garantias, meu amor, não existem garantias no universo.

Tudo vai depender de sua sinceridade.

Se você for honesta e sincera na sua escolha, certamente resultados honestos e sinceros advirão.

Lembre-se da lei da física de ação e reação: toda força exercida provoca uma força na direção contrária e de mesma intensidade.

Eu acrescentaria, meu amor, que o amor cumpre e ultrapassa essa lei: o amor que você dá retorna expandido.

Por isso meu amor, eu digo a você: vá em busca de si mesma.

Só a busca de si vale a pena realmente.

Pois buscar a si é não mais se perder de nada nem de ninguém, é estar em contato com os outros, com o cosmos, com tudo.

E amar a si nos leva a amar aos outros na mesma medida.

A você eu desejo toda a felicidade do universo, todo o amor que for possível aflorar em seu lindo coração de anjo, feito do mais cristalino sentimento de paz, a paz eterna do amor interno.

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