“O Propósito de Deus” em “Passagem para a Índia”

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“O Propósito de Deus” em “Passagem para a Índia”
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“Passagem para a Índia” é um poema que expressa a trilha de Whitman em direção à transcendência e espiritualidade e sua compreensão do “Propósito de Deus”; neste poema ele está dizendo que não há separação, que de algum modo estamos todos unidos, ligados, e que todos nós precisamos “navegar os mares de Deus”, que deveria nos ajudar a reconhecer nossa divinidade. Dê uma olhada nestas linhas da parte 2 do poema:
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Passagem para a Índia!
Olha, alma, não vês o propósito de Deus desde o início?
A terra para ser transposta, conectada por rede,
As raças, os vizinhos, para casar e ser concedidos em matrimônio,
Os oceanos para ser cruzados, o distante aproximado,
As terras para ser soldadas.
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O poeta está dizendo que a Criação é um reino unitário, o universo é unitário, e nada está separado de nada. Ao perceber que estamos todos interligados uns com os outros, podemos experimentar a divinidade; podemos finalmente entender que somos todos divinos, sagrados, corpo e alma, como o poeta canta na seção 24 da “Canção de Mim Mesmo”: “Divino sou por dentro e por fora, e torno divino o que eu tocar ou o que me tocar.” É a tarefa do poeta dizer isso a todo mundo, contar aos povos em todas as terras que a separação é uma ilusão e que somos todos filhos do mesmo Deus, filhos e filhas do mesmo Pai, e que somos todos iguais e que merecemos o perdão e o amor dos Céus de modo igual.
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Conforme o poeta se tornava quem e o que ele via, como ele cantou no poema “Havia uma Criança que Saía”, ele naturalmente os consideraria tão divinos quanto ele mesmo, tão dignos de serem filhos de Deus quanto ele mesmo era. E ele era capaz de tornar tudo “vívido” conforme os cantava. O que pode ser mais revigorante do que alguém que pode “umedecer as raízes de tudo que tem crescido.” (seção 22, “Canção de Mim Mesmo”), ou “segurar” um “homem desfalecente, e levantá-lo com uma vontade irresistível” e o ressuscitar, e torná-lo vivo de novo? Não é um milagre? Se alguém pode dar vida a tudo que vive, ele está dando sua força vital, sua força de vida a outro ser, em suma, ele está se dando aos outros, ele está entrando em outro ser e preenchendo este outro com vida, como ele diz, “tudo que eu tenho eu lego.” E “Vê! Eu não dou palestras, ou um pouco de caridade; / Quando eu dou, eu dôo a mim mesmo.” (estas últimas citações são da seção 40 da “Canção de Mim Mesmo”).
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A mesma atitude pode ser vista em Repiques de Tambor, o livro que contém os poemas sobre a Guerra de Secessão, durante a qual Whitman ajudou soldados feridos, Nortistas e Sulistas igualmente, trabalhando como enfermeiro nos precários hospitais ao redor de Washington D.C., gastando qualquer dinheiro que ele economizava para comprar comida, caneta, papel e cigarros para os pacientes que estavam totalmente indefesos, aguardando por um tratamento que o governo não estava se importando em dar de forma apropriada. Mas o poeta não cantaria apenas dramas individuais, ele estaria neles, conforme os viveu em sua própria família (um de seus irmãos se alistou nas forças da União e lutou durante toda a guerra), e na vida dos amigos que ele fez naquele tempo, e também o drama da Nação, a divisão do país e reconciliação final após os “quatro anos completos de sua duração.”[1]
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O bardo estava consciente de seu trabalho como a força unificadora de seu povo, a voz daqueles sem voz. Ele cantou na seção 22 da “Canção de Mim Mesmo”: “Que papo é esse sobre virtude e sobre vício? / O mal me propele e a reforma do mal me propele – me posto indiferente.” Ele não rejeitou nenhum aspecto da humanidade, como ele disse, na mesma seção: “Não sou o poeta da bondade apenas – eu não declino de ser o poeta da maldade também.” Ele incluiu tudo, as coisas boas e as ruins, o que vinha do céu e o que vinha do inferno. Ele assumiu seu papel como o bardo / voz de sua raça, a raça humana, cantando as alegrias e tristezas de seus camaradas. Como poderia ele jamais negar qualquer um de seus irmãos e irmãs, se ele estava esperando encontrar “O Senhor”, “O Grande Camarada” (seção 45, “Canção de Mim Mesmo”), que jamais poderia negar qualquer parte de sua criação, e por quem ele ansiava tanto? Whitman não “rejeitaria ninguém, aceitaria todos”, da mesma forma que o Criador faz, porque o Todo pode apenas ser completo se ele incluir todas as suas partes, o bom e o mau. Foi assim que o poeta expressou o amor que sentiu por todas as pessoas, conhecidos ou estranhos, mas essencialmente seres humanos, como ele mesmo, sempre por um Bem Maior! O Bem Maior de Deus, o Amor a Todos os Seus Filhos e Filhas, e a Todos os Seres da Criação.
* Texto publicado também em inglês nesta página do blogue SEEDS IN THE KOSMOS.
[1] “Fratricide and Brotherly Love: Whitman and the Civil War“, M. Wynn Thomas. In The Cambridge Companion to Walt Whitman, Cambridge University Press, New York, 1997, pg. 27.
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