Sobre Tradução de Poesia


MUDANÇAS NA CONCEPÇÃO DE  TRADUÇÃO POÉTICA,

DO MESTRADO AO DOUTORADO

(De 1995  a 2008).

O que aconteceu de 1995 a 2008 com a concepção de tradução poética aplicada a Folhas de Relva? Esta é uma pergunta fundamental para se entender a mudança textual que foi operada no texto de Folhas de Relva de um estágio a outro do trabalho. Ou seja, qual foi a evolução do Mestrado ao Doutorado? O fato é que os três livros traduzidos para a Dissertação de Mestrado foram totalmente reformulados sob essa nova ótica.

Houve várias mudanças. Elas aconteceram com base em três operações textuais que foram aplicadas aos livros já traduzidos e que foram utilizadas nos textos que foram traduzidos para a pesquisa do doutorado. A primeira operação foi a de correção vocabular. Os textos em português de “Canção de Mim Mesmo”, “Descendentes de Adão” e “Cálamo”, contidos na minha Dissertação de Mestrado (Saraiva, 1995), foram totalmente revisados, palavra por palavra, em busca de enganos e dificuldades de tradução, para posterior correção. Naturalmente, havia muitos erros. Não há necessidade aqui de enumerar a razão deles. Muito mais importante que isso é a correção feita. Textos traduzidos apresentam este problema: sempre haverá algo a ser corrigido. Mesmo livros que já estejam em sua trigésima edição precisam ser corrigidos. Sempre há falhas que não são percebidas pelos olhos e que demandam dezenas de releituras intervaladas para tal. Desta maneira, da tarefa de correção o tradutor não tem como escapar. Não há revisão que elimine todos os erros, especialmente se é sempre o mesmo indivíduo que opera esta revisão. Portanto, já deixo aqui uma abertura para futuras correções. E uma porta aberta para críticas, pois assumo de antemão a possibilidade de imprecisões.  Não que isso diminua meu compromisso com o rigor do trabalho, mas sim que a crítica quanto à precisão vocabular será sempre bem recebida.

Por exemplo, comecei a traduzir Folhas de Relva lãs pelos idos de 1988. Iniciei por “Eu canto o corpo elétrico” e, até hoje, em todas as vezes que releio o texto, estou sempre atento para localizar alguma eventual falha que ainda não tenha sido vista. Por outro lado, isso também pode ser visto como uma busca de aperfeiçoamento do texto. Diferentemente de uma pintura, ou de um texto original, um texto traduzido pode ser submetido a essa melhoria que o tempo nos presenteia. Afinal de contas, o próprio Whitman criou este tipo de trabalho textual, essa obra em progresso, que ele aplicou de maneira pessoal à sua obra, um fato inédito com um texto original. Nada mais coerente do que seguir o mesmo método com a tradução das Folhas.

Fornecendo dados mais práticos, essa revisão dos três livros citados foi feita de janeiro de 2004 a janeiro de 2006. Isso se deveu a dois fatos. O primeiro é a obrigação do tradutor de ser o mais fiel possível ao original, não poupando esforços para encontrar o termo na língua de chegada mais apropriado para transmitir o sentido da língua de partida. O segundo é a problemática apresentada pela imensa variação vocabular de Folhas de Relva. O vocabulário total de Folhas de Relva ultrapassa os 13.000 vocábulos. Isso inclui gírias, coloquialismos, estrangeirismos (palavras de origem francesa, italiana), nomes próprios, palavras indígenas (Paumanok), palavras técnicas de vários campos científicos, sem falar nos neologismos criados pelo próprio Whitman.  Acrescente-se a isso o fato de ser uma obra escrita há mais de um século, numa situação histórica bastante diversa da atual. Some-se a isso ainda a multiplicidade de sentidos que muitos termos têm. Tudo isso dá apenas uma pálida visão da tarefa do tradutor junto ao vocabulário da obra a ser traduzida. E este é só o primeiro passo.

Para deixar isso mais claro, alguns exemplos de palavras das Folhas que nos deixaram em dúvida e nos obrigaram a fazer pesquisa mais aprofundada são enumerados abaixo (não vou citar simples erros de tradução, pois esses são imediatamente sanados, mas sim palavras que realmente deram trabalho ao tradutor, tanto pela dificuldade de ser encontradas em dicionário ou internete quanto pelo sentido incomum delas mesmas ou dadas a elas pelo poeta devido ao contexto em que foram colocadas):

a) harbor (parte 1, “Canção de Mim Mesmo”): abrigo, refúgio, porto, asilo, ancoradouro, enseada; abrigar, asilar, acolher, aportar, fundear, hospedar. Mas o problema é o “harbor for good or bad”; a opção até agora ficou em “Acolho para o bem ou mal”.

b) worm fence (parte 5, “Canção de Mim Mesmo”):  Worm fence / snake fence / zigzag fence é uma cerca em ziguezague, serpeante – daí o worm, ou seja, vermiforme, de maneira tortuosa -, feita de madeira (abundante na época), pelos pioneiros ou fazendeiros americanos e que ocupava muito espaço na terra no século dezenove nos EUA. Com o tempo foi abandonada em prol das cercas de arame farpado. Ver imagem aqui.

O único lugar em que encontrei o sentido desta expressão foi na internete, que tem fotos e relata a história deste tipo de cerca. Dicionários não contêm esta expressão, eles apenas indicam os sentidos de cada palavra separadamente.

c) venerealee (parte 19, “Canção de Mim Mesmo”): traduzida como “doente venéreo”, esta palavra não tem explicação nem está listada em dicionário algum. Encontrei apenas uma indicação de que seja um neologismo de Whitman, a partir da palavra “venereal”, relativo à doença venérea. Há um livro sobre neologismos criados por Whitman, de Louise Pound, do início do século vinte, mas está esgotado há muito tempo.

d) amies (parte 22, “Canção de Mim Mesmo”): palavra francesa que significa amigas. A dificuldade foi descobrir que não se tratava de uma palavra em inglês!!!

e) rank (parte 24, “Canção de Mim Mesmo”): a palavra mais difícil, semanticamente falando; ela tem uma ampla variação de sentidos, indo do mais positivo ao mais negativo (de viçosa a indecente). Há uma nota de pé de página para “rank” que incluo aqui: “rank: como adjetivo, esta palavra tem variados significados, proporcionando um trabalho árduo para o tradutor; ela vai do sentido positivo ao negativo: exuberante, viçoso, profuso, espesso, cerrado, extremamente fértil, consumado, completo, total, extremo, grosseiro, desagradável, indecoroso, indecente, repelente, chocante, repulsivo, malcheiroso, rançoso.  Como Whitman tem uma relação tranqüila com a morte, como ele mesmo afirma várias vezes, achei por bem colocar um termo que não depreciasse nem a cópula nem a morte, já que se uma não é mais do que a outra, elas se equivalem, ou seja, uma é tão profusa, ou fértil, ou extrema, quanto a outra. De qualquer modo, fica ao leitor a possibilidade de uma interpretação pessoal, dada a lista de termos acima.” A opção escolhida foi “profusa”, mas foi feita esta longa lista para deixar ao leitor sua própria interpretação.

f) life-lumps (parte 41, “Canção de Mim Mesmo”): “lumps” são torrões, cubos, protuberâncias, massa informe, tablete, grumo, bloco, fragmento, pedaço, bocado, monte, etc. A escolha recaiu sobre “fragmentos”, “fragmentos da vida”. Contudo, esta interpretação ainda está em aberto, aguardando enquanto adquirimos o livro de Louise Pound sobre neologismos em WW citado acima.

g) llama (parte 43, “Canção de Mim Mesmo”): com dois “eles”, esta palavra se refere ao animal andino, a lhama, um camelídeo ruminante lanígero que habita a região andina da América do Sul. Mas pelo contexto (várias citações de diferentes religiões e religiosos) no qual está inserida, a palavra necessariamente foi grafada incorretamente; a correta é “lama”, ou “mestre budista tibetano”.

h) tallying, tally (do poema “Por Trilhas Intrilhadas”, de “Cálamo”): esta palavra significa “talha, entalho, marca, cálculo, cômputo, registro, grupo, série, lote, rótulo, etiqueta, acordo, réplica, reprodução; marcar, registrar, computar, calcular, rotular, etc. Por enquanto, a escolha está em “registrando / registrar”. Esta palavra é tão complexa e importante para Folhas de Relva que Harold Bloom (“Whitman’s Image of Voice: To the Tally of My Soul”, em Modern Critical Views, Walt Whitman, Chelsea House Publishers, New York, 1985) escreveu um artigo somente para estudar seus significados dentro da obra de Whitman.

i) post-and-rail-fences (do poema “Estas cantando na primavera”, de “Cálamo”): a tradução da Martin Claret (2005, pg. 134) traz: “cercas da estrada de ferro do correio”. Na realidade, a expressão designa cercas com mourões (“posts”; no caso, são vazados, ou seja, têm orifícios) nos quais são inseridos os varões (“rails”), sem o uso de pregos. São, portanto, totalmente feitas de madeira.  Estas cercas ainda são comuns nos Estados Unidos; são muito utilizadas ao redor de residências ou de pequenas propriedades rurais.

j) exaltè (do poema “A leste e oeste”, de “Cálamo”): mais uma palavra de origem francesa: exaltado, soberbo, ardente.  ”Ardente” foi a escolhida.

Outro exemplo de complexidade vocabular que é fonte de trabalho praticamente braçal para um tradutor são poemas que citam uma infinidade de nomes próprios (que incluem acidentes geográficos, países, rios, cidades, lagos, mares, oceanos, etc.), que aparecem em poemas como “Saudação ao Mundo” (parte 4, “Salut au Monde”), do qual cito este trecho:

“Vejo águas profusas,

Vejo picos de montanhas, vejo as serras dos Andes onde se alinham,

Vejo claramente os Himalaias, Chian Sahas, Altays, Ghauts,

Vejo os pináculos gigantes de Elbruz, Kazbek, Bazardjusi,

Vejo os Alpes da Estíria, e os Alpes de Karnac,

Vejo os Pirineus, Balcâs, Cárpatos, e ao norte os campos de Dofra, e ao mar o monte Hecla,

Vejo o Vesúvio e o Etna, as montanhas da Lua, e as montanhas vermelhas de Madagascar,

Vejo os desertos líbio, árabe e asiático,

Vejo imensos e medonhos icebergs Árticos e Antárticos,

Vejo os oceanos superiores e inferiores, o Atlântico e o Pacífico, o mar do México, o mar do Brasil, e o mar do Peru…”

e “Passagem para a Índia” (parte 3, “Passage to Índia”), também exemplificando a citação de nomes próprios:

“…

Vejo de relance ao longe ou se elevando imediatamente acima de mim as grandes montanhas, vejo o rio Wind e as montanhas Wahsatch,

Vejo a montanha Monumento e o Ninho da Águia, ultrapasso o  Promontório, ascendo às serras Nevadas,

Esquadrinho a nobre montanha Elk e rodeio sua base,

Vejo a cordilheira Humboltd, trilho o vale e cruzo o rio,

Vejo as águas claras do lago Tahoe, vejo florestas de pinheiros majestosos,

Ou cruzando o grande deserto, as planícies alcalinas, contemplo   encantadoras miragens de águas e prados,

Marcando através desses e afinal, em linhas duplicadas e delgadas,

Transpondo as três ou quatro mil milhas de viagem terrestre,

Atando o mar oriental ao ocidental,

A estrada entre a Europa e a Ásia.

…”

O trabalho consiste não somente em traduzir, mas também verificar como esses nomes são grafados em português, porque muitos deles na realidade nem existem em nossa língua ainda, por isso foram deixados com a grafia original. (Estes dois poemas estão incluídos na tese de doutorado). Embora as palavras difíceis sejam inúmeras, e muitas delas curiosas, não podemos citar aqui todas, pois ocupariam espaço demasiado. Confiamos que as citadas sejam suficientes para se ter uma visão do árduo trabalho do tradutor na busca de perfeição.  Afinal de contas, o que nos guia, no fundo, é sempre essa procura pela maneira mais perfeita de expressar o que o poeta expressou em sua própria língua. Mas mesmo que isso seja impossível, como na teoria da intraduzibilidade, não podemos nos esquecer que não importa a língua em que vai ser exposto o que pensamos ou sentimos, pois, no fundo, a poesia surge no poeta como um impulso, uma pressão interna de um sentimento ou emoção ou pensamento (im-pressão/ impression = in-pression = in-pressure) que vai desembocar numa pressão externa (ex-pressão / ex-pression), que alivia o interno, inspiração que é então plasmada em palavras (embora o processo oposto seja também real, de que a poesia surja naturalmente no poeta a partir das raízes profundas de sua própria língua; este fenômeno é bem complexo para se ter uma idéia pronta ou definida sobre ele; aliás, conheço os dois tipos de criação poética: uma idéia que surge e é trabalhada até ganhar forma, num processo puramente cognitivo, e a inspiração com imagens, sentimentos e emoções que depois são encarnados em palavras). Em suma, o poeta é como um médium, um meio de expressão de sentimentos e emoções e pensamentos, que pode utilizar meios sonoros ou gráficos para transmitir esta mensagem, ou seja, a força, a energia que brota de dentro do artista que vai ser colocada pra fora através de um meio físico, a linguagem falada ou escrita. Neste caso, o contexto, o meio-ambiente, em que se encontra o poeta, em que ele nasceu ou reside, é que vai ditar qual língua vai ser beneficiada com esta carga cultural. Isso também precisa ser estudado, para dar ao tradutor um maior espaço de manobra na tradução, junto com o estudo da obra para captar sua essência, viajar em suas formulações, internalizar sua carga semântica, para poder expressá-la em seguida em nossa língua. Todo esse trabalho de meditação sobre a obra original é que leva o tradutor a encontrar em sua própria língua termos equivalentes. A própria teoria de equivalência textual nos serve de apoio, pois ela nos mostra que é possível encontrar em uma outra língua palavras que equivalem às palavras do texto original em sua capacidade de expressar o que é escrito na língua de partida.

Após esse breve floreio sobre a operação tradutória, abordo agora a segunda questão na mudança de concepção lingüístico-poética na transposição da poesia whitmaniana para nosso vernáculo. Gramaticalmente falando, temos em nossa língua uma confusão praticamente insolúvel até o momento no que concerne à relação entre pronomes e verbos na questão do uso dos mesmos. Há uma mistura geral entre os usos do tu e do você. É muito comum a troca de pronomes. E também de formas verbais. Vamos tentar colocar esta questão com mais detalhes.

O problema está centrado nos usos da segunda pessoa dos pronomes pessoais retos (tu, no singular e vós, no plural) e oblíquos (te, ti e vos, vós) quando são misturados com o uso do você e lhe, lhes, se, si, pronomes oblíquos de terceira pessoa. Você é uma forma de tratamento indireto de segunda pessoa que leva o verbo para a terceira pessoa (você é uma redução da forma de reverência Vossa Mercê; vocês é usado pelo desuso da forma vós, utilizado para fazer o plural de tu).

Exemplificando com o verbo andar, para mostrar como os pronomes você e vocês flexionam como verbos de terceira pessoa:

Eu ando

Tu andas

Ele anda / você anda

Nós andamos

Vós andais

Eles andam / vocês andam

Na prática, vamos observar agora alguns trechos da “Canção de Mim Mesmo”, traduzidos anteriormente com os pronomes você e vocês (com verbos flexionando de acordo com eles e seus respectivos pronomes oblíquos) como equivalentes de you (parte 19):

“Você imagina que eu tenho algum propósito intricado?

Você crê que eu espantaria?

Esta hora eu conto coisas em confidência,

Talvez não conte a todos, mas eu lhe contarei.”

(parte 23)

“Cavalheiros, pra vocês as primeiras honras sempre!

Seus fatos são úteis, e no entanto eles não são minha morada,”

“E façam pouco caso  de neutros e capões, e favoreçam homens completamente equipados,

E batam o gongo da revolta, e parem com fugitivos e aqueles que tramam e conspiram.”

(parte 32)

“Eu só lhe uso um minuto, então eu renuncio-lhe, garanhão,”

Estes exemplos são de uso correto dos pronomes pessoais retos e oblíquos. O problema mesmo surge quando eles se misturam. No Brasil é freqüente (na linguagem coloquial e despreocupada; formas incorretas entre aspas) usar um pronome de segunda pessoa com o verbo na terceira pessoa: “tu anda”, “tu vai”, “tu foi”, etc (formas corretas: tu andas, tu vais, tu foste). Também é comum colocar o verbo na terceira pessoa e o pronome oblíquo na segunda pessoa: “Te espero se você vier”, “Se você me ouvir, te conto tudo”, “Me conta como foi teu dia” (formas corretas: Lhe espero se você vier; Se você me ouvir, lhe conto tudo; Me conta como foi seu dia). Tudo isso leva a uma confusão, a uma dubiedade de pessoas no discurso, entre com quem ou de quem se está falando. Estamos falando com uma segunda pessoa ou uma terceira? Estamos falando de uma segunda pessoa ou de uma terceira? Se tomarmos as frases acima e as colocarmos fora de contexto, essa confusão fica mais evidente: “Lhe espero” e “Lhe conto tudo” podem se referir a uma segunda pessoa (tu) ou a uma terceira pessoa (ele) e “Como foi seu dia?” pode estar tanto perguntando sobre o dia teu ou dele. Esse duplo sentido vem do fato de que o “lhe” e “seu / sua”, no uso não estritamente gramatical, podem se referir tanto a tu quanto a ele / ela. A única maneira de eliminar esta ambigüidade gramatical e semântica é pela adoção da segunda pessoa, singular e plural, nos pronomes retos e nos oblíquos e nas  respectivas formas verbais. Isto invariavelmente evapora com as dúvidas quanto a pessoas no discurso e resolve todos os nossos problemas nesse âmbito da questão, além de nos proporcionar ainda uma economia de palavras e de sílabas poéticas (discutiremos isso a seguir).

Como foi mostrado acima, na recriação para o mestrado, os poemas de “Canção de Mim Mesmo”, “Descendentes de Adão” e “Cálamo” foram traduzidos utilizando-se as formas de terceira pessoa você e vocês e seus respectivos pronomes oblíquos, de maneira gramaticalmente correta. Mas aqui surgiu um outro aspecto que levou à mudança para a segunda pessoa (tu e vós): Folhas de Relva é um poema lírico, e não épico. O poeta se dirige ao leitor de maneira direta, falando com ele com intimidade, o que podemos notar desde os versos iniciais de “Canção de Mim Mesmo”  (tradução do mestrado):

“Eu celebro a mim mesmo e canto a mim,

E o que eu assumo, você assume,

Pois todo átomo que pertence a mim a bem dizer pertence-lhe.”

Depois de muito meditar (com a ajuda de colegas, amigos, colaboradores), cheguei à conclusão de que a mudança de terceira pessoa para segunda pessoa solucionaria todos estes mal-entendidos semânticos e gramaticais. A partir disso, levei a cabo toda a mudança nos textos. Assim, os versos acima citados ficaram desta maneira:

“Supões que tenho algum propósito intricado?”

“Crês que eu espantaria?”

“Nesta hora conto coisas em confiança,

Talvez não conte a todos, mas te contarei.”

“Senhores, a vós as primeiras honras sempre!

Vossos fatos são úteis, contudo eles não são mi­nha morada,”

“E fazei pouco caso de neutros e capões, e favorecei homens e mulheres completamente equipados,

E batei o gongo da revolta, e parai com fugitivos e aqueles que tramam e conspiram.”

“Só te uso um minuto, então renuncio-te, ga­ranhão,”

“Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim,

E o que assumo, tu assumes,

Pois todo átomo pertencente a mim também per­tence a ti.”

Desta forma, não resta dúvida sobre quem e com quem se está falando e a proximidade com o leitor também é preservada. Os três livros citados foram reescritos com base nas segundas pessoas do discurso, os dois poemas citados acima (“Salut au Monde” e “Passagem para a Índia”) também já estão dentro desta nova concepção e todos os poemas traduzidos na pesquisa do doutorado estão dentro desta filosofia lingüística.  Tudo isso trouxe clareza aos poemas. Além de ajudar a diminuir uma ou duas sílabas poéticas em cada verso. O uso de segunda pessoa nos permite omitir o pronome tu, já que em português a flexão do verbo já indica a pessoa do discurso. Mesmo se o tu é usado na oração, se poupa uma sílaba, pois o você não permite omissão do pronome por causa da identidade verbal com ele / ela. Isso tem importância se lembrarmos que a língua inglesa é mais sintética que nosso vernáculo (mais analítico, ou seja, mais prolixo), e uma pequena redução no número de sílabas poéticas sempre ajuda na recriação de poemas. Embora trabalhosa em princípio, esta manobra trouxe enormes benefícios ao texto, deixando ele mais direto, mais ágil, mais solto, e cada vez menos ambíguo gramatical e semanticamente. O que propiciou um solo fértil para a terceira etapa deste processo.

Por fim, o terceiro fato, que é a questão estilística. Ela é fundamental para harmonizar a correção vocabular com a correção gramatical. Não basta encontrar as palavras corretas e usar a gramática da maneira certa, nem muito menos acrescentar figuras de linguagem, é necessário haver uma sintonia entre elas, para que se consiga atingir o objetivo, que é re-criar em português a poesia criada por Whitman em inglês. Ou seja, trabalhar todos estes aspectos, em conjunto,  em prol da melhor expressão artística, no caso, da recriação poética. E nem estou abordando aqui os aspectos essencialmente poéticos da tradução, em que tudo isso que foi aqui tratado são ordenados de maneira a criar o efeito estético apropriado a cada poema traduzido.  Apenas a questão lingüística aplicada à expressão estética.

A melhor maneira de apresentar esta correção estilística é justapondo trechos da versão final de 1995 (a) e da versão final de 2006 (b) e comparando as duas versões.

Na parte 3 da “Canção de Mim Mesmo”:

a) “Elaborar não traz proveito, cultos e incultos sentem que é assim.”

b) “Rebuscar é inútil, cultos e incultos sen­tem que é assim.”

(A nova versão é mais sintética, enxuta, tem menos palavras e é mais expressiva.)

Parte 5:

a) “Eu creio em você minha alma, o outro que sou não deve se rebaixar a você,

E você não deve ser rebaixada ao outro.

b) “Creio em ti minha alma, o outro que sou não deve se rebaixar a ti,

E não deves ser rebaixada ao outro.

(A eliminação dos “vocês” deixou o verso mais leve.)

a) “Vem vadiar na grama, tire a trava da garganta,”

b) “Vagueia comigo na relva, tira a trava da garganta,”

(A nova versão é menos coloquial e mais direta.)

Parte 6:

a) “Ternamente usarei você grama enrolada,”

b) “Te usarei ternamente crespa relva,”

(A mudança de pronome aproxima o interlocutor e “relva” deixa a atmosfera mais poética, pois se trata de uma palavra que já está enraizada no vocabulário poético tradicional da poesia brasileira.)

Parte 11:

a) “Aonde você vai, senhora? Pois eu lhe vejo,

Você espalha água lá, contudo, está estática em seu quarto.”

b) “Aonde vais, senhora? pois te vejo,

Saltas lá na água, contudo, estás estática em tua sala.

(A economia de pronomes foi fundamental para a beleza do verso.)

Parte 24:

a) “Ver o quebrar das barras!

A frágil luz desfaz as imensas e diáfanas sombras,

O ar tem gosto bom ao paladar.”

b) “Contemplar a aurora!

A frágil luz desfaz as imensas e diáfanas sombras,

O ar tem gosto bom ao paladar.”

(A mudança no primeiro verso deu um toque singelo e firme a este trecho, de meditação mesmo.)

Parte 39:

a)”O cordial e corredio selvagem, quem é ele?

Ele aguarda civilização, ou a passa e domina?”

b)”O simpático e gracioso selvagem, quem é ele?

Ele aguarda civilização, ou a ultrapassa e domina?”

(A correção substituiu a palavra “corredio” (de sentido incomum, que quer dizer corrido, corrediço) por gracioso, que é simples e conhecida, sem perder o sentido original (flowing); e “ultrapassa” tem um significado muito mais claro do que “passa”.)

Parte 51:

a) “Eu contradigo a mim mesmo?

Muito bem então eu contradigo a mim mesmo,

(Eu sou vasto, eu contenho multitudes.)”

b) “Contradigo a mim mesmo?

Muito bem então contradigo a mim mesmo,

(Sou vasto, contenho multidões.)”

(A retirada dos pronomes e a troca para “multidões” deixou este trecho mais incisivo. Afinal de contas, a linguagem do original é assim mesma, clara e direta com o leitor, e a tradução não pode ser uma explicação do texto original, tem que ser tão clara e quando necessária tão obscura quanto o original, mas nunca um rodeio para transformá-lo em algo que ele não é, no caso, um texto elucidativo.)

Trecho de “NÓS DOIS, O QUANTO FOMOS LOGRADOS”, de “Descendentes de Adão”:

b) “Somos mares mesclando, somos duas daquelas alegres ondas rolando uma sobre a outra e se intermolhan­do,

Somos o que a atmosfera é, transparentes, recep­tivos, pérvios, ínvios,

Somos neve, chuva, frio, trevas, somos cada pro­duto e influência do globo,

Temos circulado e circulado até que chegamos em casa de novo, nós dois,

Temos esvaziado tudo menos liberdade e tudo menos nosso próprio gozo.”

Neste caso,  não será necessário citar a primeira versão, dado que a única diferença é que na primeira havia o emprego do pronome “nós”, que foi removido nesta. Esta é uma das vantagens do Português, a possibilidade de omitir o pronome pessoal reto, o que dá mais agilidade ao verso, pois o verbo em si já indica o sujeito.

E agora, alguns exemplos de Cálamo:

do poema “PARA TI OH DEMOCRACIA”:

a) “Vem, eu farei o continente indissolúvel,”

b) “VEM, tornarei o continente indissolúvel,”

(“tornarei” tornou o verso muito mais vibrante!)

de “GOTAS VERTENTES”:

a) “Gotas vertentes! Minhas veias azuis deixando!

Oh gotas de mim! Vertam, lentas gotas,

Cândidas caindo de mim, pinguem, sangrantes gotas,”

b) “VERTEI gotas! minhas veias azuis vazando!

Ah gotas de mim! vertei, vagarosas gotas,

Caindo cândidas de mim, pingai, sangrantes gotas,”

(“vazando”, “vagarosas”, bem como a inversão no terceiro verso deixou este trecho muito mais ritmado, mais sonoro, mais bonito, em suma! )

Sinto que todas essas mudanças na concepção e prática de recriação poética tiveram um efeito fantástico no texto final das Folhas que já foram traduzidas. E espero continuar perseguindo este ideal de perfeição, como qualquer artista o faz. E sonhar com a publicação impressa desses poemas. Já está mais do que na hora do Brasil ter Folhas de Relva publicado na íntegra numa tradução compatível com a genialidade e generosidade do bardo norte-americano. Mas, assim como Whitman bancou as edições das Folhas de seu próprio bolso por quase trinta anos, parece que vou atingir esse mesmo tempo nesta tarefa. Já se vão mais de 20 anos neste trabalho e as editoras com quem falei ainda tocam timidamente no assunto. Talvez com tanta demora eu acabe publicando todo esse trabalho aqui mesmo. Quem sabe? Quase tudo de minha autoria está em minhas páginas na internete. Ou talvez um pouco de pressão aqui faça algum editor deste país levar as Antenas da Raça mais a sério!


Tradução, Teoria e prática. John Milton, Martins Fontes, 1998, pg. 69.

“A crítica da tradução literária.”, Helder Martins, em Cadernos de Tradução, No. IV, NUT, UFSC, 1999.

Moderna Gramática Portuguesa. Evanildo Bechara, Companhia Editora Nacional, 1989, pg. 94 e seguintes.

Reblog this post [with Zemanta]
Bookmark and Share
Related Posts with Thumbnails
2 Comments Post a Comment
  1. [...] artigo está publicado nesta página do Sítio de [...]

  2. [...] se ligar”. Como eu já expliquei em um artigo no Sítio de Poesia, sobre tradução, o pronome pessoal oblíquo átono se é de terceira pessoa. Assim, quando [...]

Leave a Reply




PÁGINAS