Música de Câmara

Chiemsee - Bayern - Deutschland
Image via Wikipedia

MÚSICA DE CÂMARA

James Joyce

Traduzido do Inglês por:

Gentil Saraiva Júnior

I

Cordas no solo e ar

Adoçam a música;

Cordas no rio, lá

Salgueiros curvam-se.

xxx

Há música pelo rio,

Pois Amor anda nele,

Flores pálidas no manto,

Folhas negras no cabelo.

xxx

Mansamente tocando,

Dobra a cabeça, lento,

E dedos errando

Sobre um instrumento.

II

O ocaso troca o ametista

Por um escuro azul-de-seda,

Lâmpada verde-gris que brilha

Nas ramas da alameda.

xxx

Piano antigo toca uma ária,

Tranqüila, lenta, alegre;

Ela se curva sobre as teclas,

Baixa a cabeça breve.

xxx

Cismas e grandes olhos graves

E mãos que vagam esquivas –

O ocaso fica azul-turquesa

Com luzes de ametista.

IV

Quando a hesitante estrela avança

Desconsolada e bem singela,

Escute onde a treva alcança

Alguém que canta à sua janela.

É mais sutil que o orvalho o canto

E ele deseja ver-te tanto.

xxx

Ah não se curve em fantasia

Quando ele após o ocaso implora

Nem cisma: quem ele seria

Cuja canção meu peito adora?

Saiba, no meu cantar de amante,

Sou eu que sou seu visitante.

V

Vem cá na janela,

Cabelo dourado,

Ouvi-te cantando

Uma ária de agrado.

xxx

Livro fechado;

Leio mais não,

Vendo o fogo dan-

çar no chão.

xxx

Eu deixei meu livro:

Eu deixei meus muros:

Pois te ouvi cantando

Pelo escuro.

xxx

Cantando e cantando

Uma ária de agrado.

Vem cá na janela,

Cabelo dourado.

XVI

Ah fresco é o vale agora

E lá, amor, hemos de ir

Pois muitos coros cantam agora

Onde Amor houve de ir.

xxx

Não ouves sabiás chamando,

Nos chamando lá?

Ah fresco e agradável é o vale,

E lá, amor, hemos de estar.

XVII

Porque tua voz tive a meu lado

Causei-lhe dor,

Porque na minha mão segurei

Tua mão de novo.

xxx

Não há palavra, nenhum gesto

Vai dar alívio –

Agora é estranho para mim

Quem foi amigo.

XVIII

Ah querida, escuta,

Teu amante fala;

Terá mágoa um homem

Se amigos falham.

xxx

Saberás que eles

Desleais serão

Virar poucas cinzas

Suas palavras vão.

xxx

Mas uma para ele

Suave se move

Suave e cortês

Com amor comove.

xxx

Sob teu redondo

Seio sua mão jaz;

E ele que tem mágoa

Vai ter paz.

XIX

Não se abata porque os homens todos

Fazem falso clamor na sua presença:

Querida, fique em paz de novo –

Acaso ferem sua decência?

xxx

São mais tristes que uma lágrima;

Suspiro sem fim, suas vidas se elevam.

Com orgulho responda às lágrimas:

E negue, como negam.

XX

No pinhal escuro

A gente iria,

Na sombra fresca

Ao meio-dia.

xxx

Que doce estirar,

Doce beijar,

Onde a grande floresta

Aberta está!

xxx

Teu beijo descendo

Mais doce tê-lo

Com o manso tumulto

Do teu cabelo.

xxx

Ah, para o pinhal

Vamos, agora,

Ao meio-dia,

Amor, embora.

XXIII

O olhar que freme ao meu olhar

É minha riqueza e meu desejo,

Infeliz quando se afastar

E feliz entre beijo e beijo;

Riqueza e desejo — é verdade! –

E toda minha felicidade.

xxx

Nele, como em musgoso ninho

Os rouxinóis vão pôr tesouro,

Eu pus tesouros que eu retinha

Antes que eu visse o que era choro.

Teremos sua sabedoria

Malgrado o amor só dure um dia?

XXIV

Silente ela escova

Seu longo cabelo,

Silente e graciosa,

Com graça e desvelo.

xxx

O sol nas folhas do salgueiro

E na grama do canteiro,

Ela escova o longo cabelo

Diante do espelho.

xxx

Eu lhe peço, não escova

Seu longo cabelo,

Pois ouvi que há bruxaria

Sob graça e desvelo.

xxx

Nesta coisa o amante se enlaça:

Ficar ou ir em frente,

Toda bela, com muita graça

E muito negligente.

XXVIII

Dócil dama, tristes hinos

Sobre o fim do amor não cante;

Esqueça a tristeza e cante,

Como o amor que passa é bastante.

xxx

Cante o longo e fundo repouso

De amantes mortos, de que forma

Na cova o amor fará seu pouso.

Agora o amor soçobra.

XXX

O Amor nos chegou em tempo passado

Quando um no ocaso brincava ansioso

E o outro com medo olhava parado –

Que Amor no começo é todo medroso.

xxx

Éramos graves amantes. O Amor

É passado que teve doces horas,

Bastantes. Bem-vindos sejamos, por

Fim, aos rumos que tomamos agora.

XXXI

Ah, foi lá fora em Donnycarney

Quando o morcego bateu asas

Eu e meu bem andamos juntos

E doces foram suas palavras.

xxx

Conosco o vento de verão

Ia murmurando — Ah, contente! –

Mas mais macia que a morna aragem

Foi seu beijo de repente.

XXXII

Caiu a chuva todo o dia

Ah, vamos pro arvoredo agora

Refolham as folhas pela via

Das memórias.

xxx

Ficando um pouco pela via

Das memórias vamos partir.

Vem, querida, onde eu queria

Ao coração falar-te.

XXXIV

Dorme, Ah dorme agora,

Ah coração inquieto!

Uma voz “dorme agora”

É ouvida em meu peito.

xxx

A voz do inverno

É ouvida na porta.

Ah dorme que o inverno

“Do sono não gosta!”

xxx

Meu beijo dará agora

Sossego e paz ao seu peito –

Dorme em paz agora,

Ah coração inquieto!

XXXV

De dia eu ouço o som das águas

Lamentando,

Gaivota triste que no céu

Vai sem bando

E ouve os ventos contra o monótono

Oceano.

xxx

Ventos gris, ventos frios soprando

Onde eu ande.

Eu ouço o som de muitas águas

Bem distantes.

Correm noites e dias inteiros

Inconstantes.

XXXVI

Ouço a carga de um exército sobre a terra

E o trovão dos cavalos arfando, baba nos joelhos.

Arrogantes, negri-blindados, eretos,

Desdenham as rédeas, com alados açoites, os cocheiros.

xxx

Gritam à noite seus nomes de batalha:

Gemo no sono quando ouço ao longe suas gargalhadas.

Fendem a sombra dos sonhos, cega flama,

Clangorando o coração como a uma bigorna.

xxx

Balançam em triunfo seus verde-longos cabelos:

Eles saem do mar e correm aos brados na costa.

Coração, não tens senso de desespero?

Amor, amor, amor, por que virou-me as costas?

****

ECCER PUER

Do baço passado

Um menino nasce;

Alegria e mágoa,

Meu peito desfaz-se.

xxx

Sereno em seu berço

O vívido jaz.

Que abram seus olhos

Amor, graça e paz!

xxx

A infância respira

Na vidraça;

Mundo que não era

Vem e passa.

xxx

Um menino dorme:

Um velho se foi.

Ah, pai sem amparo,

Seu filho perdoe!

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4 Responses to “Música de Câmara”

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