Omar Khayyám
Em primeiro lugar, devo ressaltar que conheço profundamente cada um destes poemetos e que cultivo uma intensa admiração tanto pelo autor original quanto pelo tradutor responsável pela versão inglesa. Isto advém da pesquisa que realizei sobre o trabalho do poeta e tradutor Edward Fitzgerald. Estudando as anotações e as cartas que ele enviou ao seu professor de Persa, encontrei a gênese de seu amor por esse antigo poeta, que ele considerou o mais genial de toda a literatura do planalto do Irã. Fitzgerald comparava Omar Khayyám a John Donne e a Calderón, de quem traduziu seis peças para o inglês. Na época, ele dedicava-se à tradução de outros poetas persas, porém, ao descobrir a poesia omariana, ficou absolutamente fascinado por aqueles minúsculos e chamejantes rubis do deserto. De imediato, abandonou todos os seus projetos e mergulhou por completo no Rubáiyát, que saiu na primeira edição com setenta e cinco quartetos e na segunda com cento e dez.
Em segundo lugar, vem a relação com a crítica. Existem vários posicionamentos quanto ao método empregado por Fitzgerald. Alguns críticos (todos da época) reprovaram o tradutor inglês pela condensação que ele imprimiu aos poemas. Eles afirmavam que os quartetos originais eram mais livres, ou mais tênues. Em suma, o que aconteceu foi o seguinte: a obra de Fitzgerald não correspondia literalmente ao original persa. Isto foi devido ao fato de que, na tradução, ele, às vezes, fundia duas estrofes em persa em apenas uma em inglês. Por este motivo, esta parte da crítica apontava isto como um desvio, ou uma correção proposital que não devia ser aplicada a uma obra de arte, pois poderia prejudicar seu valor estético.
Por outro lado, houve críticos que apoiaram o trabalho do tradutor, possibilitando inclusive a publicação desta obra, sem enxergar nenhum desrespeito ou falseamento à obra original. Pelo contrário, ressaltavam a magnífica versão que Fitzgerald entregava ao público inglês. Entretanto, o elogio não veio apenas dos críticos que apoiaram seu método. Mesmo aqueles que o reprovavam não deixaram de realçar o acabamento de excelente qualidade que os poemas de Omar Khayyám receberam através da arte do poeta inglês.
Com relação a este aspecto, eu mesmo empreendi um estudo neste sentido. Um estudante de origem árabe que tinha conhecimentos de persa me ajudou na tarefa. Cotejamos primeiro as duas obras originais (em persa e em inglês). Em seguida, comparamos com alguns quartetos que eu havia recriado em português. Sendo ele também conhecedor de poesia, inclusive tradutor, sua opinião era relevante. E sua conclusão foi também favorável à obra do tradutor inglês. Quanto a meu trabalho inicial, eu estava no caminho certo.
Deste modo, o aspecto estético da edição inglesa do Rubáiyát é indiscutível. Considerando que estudei e recriei esta obra durante vários anos, posso dizer que ela apresenta um ritmo impecável (decassílabos heróicos, com acento rítmico na segunda, ou terceira, sexta e décima sílabas; e sáficos, com acento ritmico na quarta, oitava e décima sílabas), rimas preciosas (são rimas de extrema dificuldade para o tradutor, pelo fato de, em quatro versos, três rimarem com exatidão, no esquema aaba), aliterações e assonâncias em alto grau e uma harmonia belíssima. Em resumo, é uma poesia que tem laços fortíssimos com a música, isto é, sua cantabilidade não cede em nenhum verso. Este é, com certeza, um dos aspectos mais importantes, precisamente por residir nele uma outra grande dificuldade para quem se embrenha neste campo da literatura. Por esta razão, a recriação de um valor estético passa seguramente pela habilidade daquele que opera o texto. Por exemplo, posso demonstrar isto na prática, comparando um quarteto de Fitzgerald com uma tradução de Augusto de Campos e outra de minha autoria, juntamente com uma de Emilio de Adour e outra de Jamil Almansur Haddad (citado por Alfredo Braga em sua página; Braga também é tradutor do Rubáiyát):
Tradução de E. Fitzgerald:
XXIII
“Ah, make the most of what we yet may spend,
Before we too into the Dust descend;
Dust into Dust, and under Dust, to lie,
Sans Wine, sans Song, sans Singer, and – sans End!”
Recriação de Augusto de Campos:
XXIII
“Ah, vem, vivamos mais que a Vida, vem,
Antes que em pó nos deponham também,
Pó sobre pó, e sob o pó, pousados,
Sem Cor, sem Sol, sem Som, sem Sonho – sem.”
Nossa recriação:
XXIII
Prove todo o prazer que ainda vem,
Antes que empurrem-nos ao Pó também;
Pó entre Pó, e sob Pó, postados,
Sem Canção, sem Cantor, sem Vinho, e – sem!
Tradução de Emilio de Adour:
XXIII
“Tira proveito do que é teu, sem dó,
Antes que tenhas que baixar ao pó;
Pó para o pó, e sob pó sepultado,
Sem vinho ou canto, e sem cantora – só!”
Tradução de Jamil Almansur Haddad:
XXV
“Vamos gozar o Amor! Provar cada Alegria
Que a vida possa dar! Seremos Poeira um dia:
Poeira a jazer na Poeira e sob a Poeira assim
Sem Vinho e sem Amor, sem Música e sem Fim!”
As diferenças entre os três primeiros textos são mínimas. Há mais distância entre a minha tradução e a de Augusto de Campos (diferenças semânticas) do que entre as nossas e o texto de Fitzgerald. Pode-se notar audivelmente que o ritmo é o mesmo em todos os quartetos. Inclusive as rimas são todas iguais (sonoramente, as rimas em português correspondem àquelas em inglês). Quanto aos dois seguintes, não há necessidade de crítica, basta a comparação. E apesar do imediatismo omariano, o sentido de aproveitar a vida não passa exatamente pela mesquinharia dos dias atuais, mas sim pelo carpe diem, que é desfrutar a vida, aproveitar o momento e não perder tempo com divagações inúteis. Omar se lança ao prazer com arte, literalmente. Se ele desprezou a vida de astrônomo e matemático na corte do Sultão Malik-Shah da Pérsia, e decidiu se deleitar com o que o mundo tinha a oferecer, com certeza ele não se prenderia à riqueza como se faz nesta parte do mundo. Quanto à tradução de Adour, ela saltou sobre muitas dificuldades do texto, buscando soluções literárias banais, como, por exemplo, o uso excessivo de verbos no final dos versos, o que facilita a rima. Este recurso precisa ser dosado, ou melhor, deve acompanhar a frequência do original, senão torna o texto cansativo. Isto serve para todo o conjunto da tradução de Adour. Quanto à versão de Haddad, trata-se, tecnicamente, de uma prosa re-distribuída em quatro linhas. Como eu disse antes, devemos seguir à qualidade de uma obra, coisa que é mantida nos cento e dez poemas em inglês. Em português, eu recriei por volta de quarenta quartetos, que agora entrego para o julgamento do público. Como dizia Ezra Pound, a melhor crítica é feita por comparação, colocando os textos lado a lado, deixando principalmente que o leitor decida por si mesmo.
Em terceiro lugar, elucidarei o porquê de me colocar uma tarefa tão árdua (dispendi, no mínimo, cinco anos na recriação da parte do Rubáiyát que ora publico). É que quando descobri esta magnífica obra (a edição inglesa de E. F.), procurei em bibliotecas e livrarias por edições brasileiras que porventura existissem. A primeira que eu encontrei foi uma tradução de Manuel Bandeira. No prefácio de tal volume, o poeta explicava que baseara sua tradução em edições portuguesas e francesas, que ele confiava como reprodutoras fiéis do texto original. Sequer mencionava o nome de Edward Fitzgerald.
O texto de Bandeira é inteiramente diferente, no que se refere a ritmo, métrica, rima e estrofação, dos textos citados. É praticamente um texto em prosa, ou uma prosa metrificada (ainda não conferi isto a fundo). Infelizmente, não consegui uma edição para incluir aqui um excerto. De qualquer modo, o poder semântico e imagético do Rubáiyát ficou completamente empalidecido, sem vigor (ele fez o caminho inverso de Fitzgerald, isto é, diluiu cada estrofe em duas, por achar que havia imagens demais para cada quarteto).
Contudo, ao estudar a obra de Bandeira, descobri que esta não foi a única tradução em que ele usou do artifício da diluição estrófica, rítmica e semântica. Há poemas de Emily Dickinson, de E. E. Cummings e de muitos outros poetas que sofreram esta adaptação manuelina. Mesmo se considerarmos que ele logrou êxito em muitas traduções, e eu não posso negar isto, no caso do Rubáiyát não foi bem assim. É que Bandeira, em termos poéticos, preferia os ritmos mais populares: redondilhas e decassílabos com ritmo menos marcado, cujas métricas se encaixam naturalmente no idioma português.
Esta explicação mostra um dos motivos que eu tinha para pretender uma publicação do Rubáiyát. Os outros motivos são ainda mais fáceis de ser compreendidos. Há nas livrarias mais duas ou três edições do poeta persa. Algumas são absolutamente ruins; isto eu afirmo com inteira sinceridade. A única razoável é a de Emilio de Adour. Mas eu confio que é possível melhorar muito ainda o teor estético do Rubáiyát. Em virtude disso, eu considero natural o meu desejo de dar ao público uma versão que resgate do exotismo um conjunto fabuloso de poemas. Assim, entrego a vocês o que recriei há muitos anos com profundo estudo e carinho pelos grandes poetas. Recriar o Rubáiyyát foi uma escola para aprender ritmo e métrica na poesia de língua portuguesa, e não por acaso Ezra Pound recomendava a todo aluno de poesia de se exercitar na tradução.
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Armando Fortuna
não consegui localizar nenhuma edição via internet.
Talvez você encontre em lojas de livros usados.
Abraço.